“Há uma verdade que o fado me pede”

Cuca Roseta diz que há uma idade mínima para cantar e ouvir fado porque é preciso ter uma certa maturidade para o poder compreender. Há uma nova geração de fadistas que compreende o mundo moderno, e ao mesmo tempo que mantém puras as raízes históricas do fado tradicional, acredita que as redes sociais são instrumentos essenciais para que a música se possa dar a conhecer às novas gerações

 

Cuca Roseta chega finalmente às sala mais emblemáticas de Portugal: o Coliseu de Lisboa e o Coliseu do Porto recebem em novembro uma das maiores cantoras portuguesas da atualidade.

José Manuel Diogo O que significa para a fadista ícone da última geração de talento do fado português chegar aos Coliseus?

Cuca Roseta É um momento muito especial. Já tinha sido aliciada várias vezes a fazer os Coliseus, mas como são salas muito emblemáticas, muito especiais, não gostava de ter que estar a enchê-las apenas com o meu público, ou estar preocupada por não ter repertório suficiente. A confiança e a segurança que agora sinto dizem-me que esta é a altura certa para chegar às pessoas com a minha música, com o meu fado. Também por isto pude preparar um espetáculo diferente. Um espetáculo sem duetos, sem participações especiais, será apenas a Cuca Roseta e a sua música.

Canções apenas dos álbuns a solo?

Exatamente. Estes dois concertos são o fechar de um ciclo. Este ano fizemos “milhares” de espetáculos; estamos desde março na estrada e agora é tempo de desacelerar um bocadinho. Fechamos o ano com estes concertos. Queremos que os Coliseus sejam um encerramento com chave de ouro.

E que novidades podemos esperar para estes concertos?

Há muitas surpresas… vão estar muitos músicos em palco, músicos diferentes do habitual que vão estar em palco também de uma forma diferente da habitual…. Vai ter um grande impacto.

Disseram-me que ia ter uma orquestra inteira em palco…

… sim, talvez, mas vai estar escondida. Vou fazer coisas em palco que nunca fiz até hoje. O concerto será um crescendo, começa simples para acabar de uma forma mais apoteótica… em palco vão chegar a estar mais de 100 músicos.

Estes concertos vão ser os concertos da sua vida?

Acho que sim. Penso que nunca mais os vou repetir desta forma. É a primeira vez que canto nestas duas salas e uma primeira vez nunca se repete. Mesmo que um dia volte, já não será o mesmo. Estes dois concertos serão sempre os “concertos da minha vida”.

Lembra-se da primeira vez que foi ver um espetáculo ao Coliseu?

Foi a Joan Baez. Fui com os meus pais, devia ter uns 18 anos. A minha mãe gosta muito dela. O Coliseu tem uma energia muito especial, uma envolvência incrível. A Joan estava sentada, sozinha em palco. A sala estava completamente cheia mas, ao mesmo tempo, parecia que cada pessoa estava especialmente próxima do artista. É uma sala muito, muito especial. O último concerto que eu vi lá foi da Maria Betânia, uma das artistas que mais me inspira, e senti isso de novo, num Coliseu cheio de uma energia incrível.

… vendo essas artistas, alguma vez se projetou a cantar nos Coliseus, alguma vez pensou ‘um dia vou cantar aqui’?

Nunca me tinha imaginado a cantar no Coliseu (risos). As pessoas diziam-me sempre – vamos fazer o Coliseu, vamos fazer o Coliseu – e eu dizia: Não! Ainda não me sinto preparada. Agora, quando me voltaram a fazer a proposta achei que já podia. Mas mesmo assim acho que me vai arrepiar muito. Talvez para muitas pessoas ir ao Coliseu possa estar banalizado, mas para mim não. É uma sala que me impõe muito respeito. Que me faz querer dar mais de mim ao meu público; que me faz querer que este espetáculo seja inesquecível para quem estiver presente.

E o que vai cantar?

Quero que seja uma travessia que passa por toda a minha carreira. Gostava que as pessoas pudessem sentir que há uma história, um fio condutor, desde a primeira até à última música que gravei. Vou também cantar ao vivo fados que foram gravados e que depois, por um motivo ou outro, ficaram esquecidos nos concertos. Quem for aos Coliseus vai ouvir fados cantados em palco pela primeira vez. Há músicas lindíssimas que vão poder brilhar em palco. Vamos revisitar momentos especiais em canções como Homem Português, Tortura e o Fado do Cansaço.

Há uma grande diferença entre interpretar e cantar as suas palavras e as dos outros.

Eu gosto muito de poesia e obviamentea minha poesia é pobre quando comparada com Florbela Espanca Camões ou Vinícius de Moraes, mas quando canto as minhas histórias, vou mais ao encontro desta verdade que o fado me pede, sinto-me mais autêntica quando canto, entrego-me mais a elas …

Pela primeira vez, um letrista ganhou o Nobel da Literatura. O Bob Dylan no início da sua carreira não deixou de ser aquilo que a Cuca Roseta é agora, uma poetisa que canta fado?

Foi uma surpresa, ninguém estava à espera, mas é bonito ver que, pela primeira vez, o prémio Nobel é dado a um artista pelas letras das suas músicas. Há letras que são verdadeiramente geniais e faz todo o sentido valorizar um artista como poeta.

Tem músicas preferidas? Consegue escolher entre as suas composições?

Há uma música que me emociona sempre e que nem é minha. (risos) É do Zeca Afonso com poema do Luís de Camões (gosto muito do Luís de Camões). É o “Verdes são os campos”. Emociono-me sempre quando a ouço porque está associada a uma experiência da minha vida muito forte e tem uma melodia lindíssima. Das minhas, gosto muito do Fado da Entrega e do Fado do Silêncio. É uma homenagem minha a Lisboa.

Gosta muito de Lisboa…

Gosto. Sobretudo de Lisboa à noite, Lisboa ganha uma magia espacial quando o sol se vai. Mas gosto muito do Porto, que tem um mistério único; de Guimarães… de Ponte de Lima que é uma cidade mágica. Há tantas… Gosto de Barcelona e de Londres, apesar do tempo… mas quem viaja muito constrói sempre as suas memórias pelos sítios por onde passa.

 

ENTREVISTA DE  José Manuel Diogo