HÁ DIAS ASSIM

A peça ‘Os Dias Realistas’, do premiado dramaturgo novaiorquino Will Eno, junta em palco, pela primeira vez, Manuela Couto, Paulo Pires, Catarina Furtado e o marido, João Reis. É uma reunião de amigos. Ou melhor, em cena, é o encontro de vizinhos que se relacionam entre si e partilham um problema comum de diferentes formas. Como todos nós…

TEXTO Sofia Canelas de Castro

‘Os Dias Realistas’ fala de (e para) todos nós. E dos dias: das jornadas que  se seguem umas às outras; dos Dias,  dois casais, vizinhos, que lidam de  diferentes formas com um problema  comum com o qual se confrontam.  Trata também de doenças. Reais ou  imaginárias. A peça que a produtora  UAU leva à cena no Auditório dos  Oceanos (de 11 de janeiro a 19 de  março) – Casino de Lisboa e, a partir  de 29 de Março, no Teatro Sá da Bandeira,  no Porto, “é para todas as pessoas”,  concretiza o encenador Marcos Barbosa. “Porque fala sobre a forma  como lidamos perante o desconhecido,  aquilo que não controlamos. Mas,  no final, temo-nos uns aos outros”.

Também os Dias se têm uns aos  outros. Catarina Furtado é ‘Bambi’,  mulher de ‘João Dias’ (Paulo Pires)  – o novo casal vizinho de ‘Margarida’  (Manuela Couto) e ‘Tó Dias’ (João  Reis), recém-chegado a uma pequena  cidade. Para além da coincidência do  apelido e de dividirem o quintal, os vizinhos  partilham ainda um problema  comum: ambos os maridos padecem de uma doença neurológica, “inventada  pelo autor [Will Eno]”, como esclarece  o encenador. Mas lidam com ela  de maneiras muito distintas.

“A ‘Bambi’ é a personagem mais  instável psicologicamente porque  teve uma infância e adolescência  difícil”, começa Catarina Furtado.  “É a mais instável, mais  ansiosa e tem pouco jeito para  lidar com a dor”. Talvez por isso,  o marido, em palco, “a queira poupar,  escondendo-lhe a sua doença”,  completa Paulo Pires. Na casa ao  lado, a ‘Margarida’ “é uma cuidadora que quer transformar o lado mau da  vida em coisas boas”, segundo a atriz  que lhe dá vida, Manuela Couto. Já o  seu marido de palco, João Reis: “é  mais contemplativo, gosta de estar  mais por casa e não tanto  de conviver com as  vizinha”, brinca o ator, referindo-se à personagem interpretada pela mulher, Catarina.

Com todos estes ingredientes, pode antever-se o que aí vem de ‘confusão’ nas relações entre estes dois casais. “É uma peça sobre a linguagem e a relação entre as pessoas, sobre como lidamos com a mortalidade e o desconhecido. É uma comédia, sim, com humor negro. Choramos e rimos com ela”, reforça Marcos Barbosa.

MARIDO E MULHER EM CASA; VIZINHOS EM PALCO

João Reis e Catarina Furtado estão juntos  em palco pela primeira vez. Já antes, o ator a dirigira (como encenador) na  peça ‘Transações’, em 2009, mas esta é a sua estreia em contracena. A novidade dificulta as agendas e gestão do  dia-a-dia mas, garantem, “tem sido um prazer imenso”.

Os ensaios têm decorrido a bom ritmo e também têm de conciliar as agendas difíceis de todo o elenco, um conjunto de atores multifacetados e experientes em televisão, cinema e teatro. Já para Catarina Furtado – que acumula funções tão diversas como apresentadora de televisão (‘The Voice Portugal’, RTP), documentarista, embaixadora da Boa Vontade da ONU – este é um regresso aos palcos há muito desejado. “Este é o momento certo. Tinha umas saudades incríveis do teatro depois deste longo  interregno, mas precisava de um projeto e um elenco que me dessem todas as condições de confiança”.

‘Os Dias Realistas’ estreia no Casino de Lisboa, a 11 de janeiro, e dia 29 de março, no Teatro Sá da Bandeira do Porto

O projeto é este: ‘Os Dias Realistas’  (‘The Realistic Joneses’, na sua versão  original estreada nos Estados Unidos  em 2012), de Will Eno, já arrecadou  vários prémios e foi inclusive considerada  a Melhor Peça de Teatro da Broadway  de 2014 pelo ‘USA Today’. Marcos  Barbosa, encenador do Teatro Oficina,  gosta especialmente de dramaturgias  contemporâneas. Como esta, “brilhantemente  traduzida por Jacinto Lucas  Pires, e que dá tanta importância à linguagem e às relações entre as pessoas  e repleta de situações dramáticas  e cómicas”.

“O mais importante da peça é a reflexão que ela provoca nos espetadores”,  assegura Paulo Pires. “Sim, leva-nos a  pensar nesta ânsia de se querer ser infinito  com a certeza de se ser finito”,  atira, de imediato, Manuela. Os colegas  aplaudem: “Grande frase, Manuela!”.  A afinidade entre o elenco é evidente. Em cena terão de dividir cumplicidades  e um texto que, assegura o encenador,  “sendo acessível, é muito exigente e vive muito do desempenho dos atores.”

Uma comédia de humor negro que,  como diria João Reis, nos alerta para o essencial: “Carpe Diem” (‘aproveitem a  vida’, num sentido geral). Ou, nas palavras de Catarina: “Faz de conta que a vida é boa”. Venham ver, vamos falar de todos nós”.

Catarina Furtado e João Reis “É inevitável levar o trabalho para casa”

Contracenam juntos pela primeira vez. Acabam por levar o trabalho para casa…

CATARINA É inevitável. Levamos trabalho para casa, sim, e falamos muito da peça e eu pergunto muitas coisas ao João porque também tenho uma grande admiração e confiança profissional nele.

Tem sido fácil fazer a gestão profissional e familiar?

CATARINA Tem sido uma gestão terrível, muito difícil de equilibrar com os horários, as crianças, os ensaios…Mas tem sido um grande prazer.

Como se sentem em palco, na contracena?

JOÃO É mais fácil contracenar com a Catarina do que dirigi-la porque assim não tenho responsabilidade sobre o trabalho dela (risos). Não, agora a sério, esqueço-me que somos um casal. A Catarina é muito generosa em palco e dá tudo aos colegas.

CATARINA Sim. É mais fácil contracenar do que ser dirigida (risos). Estou a devolver à letra…

Como estão os vossos filhos (João Maria e Maria Beatriz, de 9 e 10 anos, respetivamente) a lidar com esta novidade?

JOÃO Estamos todos muito felizes. E eles também, de nos verem a trabalhar juntos. Naturalmente que sentem mais as nossas ausências…

CATARINA Sim, porque somos pais presentes. Está a ser um imenso prazer.