4 de Fevereiro Campo Pequeno

Hora: 22h00
Promotor: Vibes & Beats
Preço: 25 a 35 €
Idade: M/06

Fernando Ribeiro é filósofo de formação e vocalista dos Moonspell, a mais prestigiada banda de heavy metal portuguesa. Gostava de fazer uma tournée com os Iron Maiden ou os Metallica e arriscava um dueto improvável com o deputado comunista Miguel Tiago. Conversámos com o ‘metaleiro-filósofo’ no estúdio da banda, onde preparam o concerto que vai acontecer no Campo Pequeno, em Lisboa, dia 4 de fevereiro.

Texto: Sofia Canelas de Castro

Foto: Paulo F. Mendes

 

Eras teenager quando começou. Viver na Brandoa teve alguma influência?

Talvez. Estar na Brandoa, naquele contexto social de subúrbios, era importante termos alguma coisa para fazer. Apesar de eu ser muito dedicado à escola e, na altura, queria ser professor de filosofia. E foi lá que formámos a banda e o nosso quartel-general e a partir dali descobrimos o mundo e pessoas parecidas connosco em termos de músicas, lifestyle, teorias…e fomos criando a nossa própria rede. E, para essa rede ficar equilibrada, precisávamos de uma banda. E, na altura, até criticávamos que não havia, entre as bandas portuguesas, desejos e tentação de fazer coisas com muita originalidade. Por isso, apostámos na originalidade e na teatralidade e formámos os Morbid God…

Essa foi a banda que deu origem aos Moonspell. Sentiste então que havia espaço para uma nova banda de heavy metal…

Foi completamente um tiro no escuro. Não fazia a mínima ideia como é que Portugal ia reagir ao heavy metal. Ainda hoje em dia tenho dificuldades em perceber como é a reação de Portugal ao heavy metal… Mas, na altura, também havia uma atenção especial a este género – o Blitz tinha uma coluna, havia algumas rádios que passavam mais heavy metal – e por isso também houve uma atenção especial aos Morbid God, precisamente por essa originalidade…

A mudança de look era uma imposição a que sabiam que tinham de obedecer para conquistar este mercado?

Foi mais um desejo do que uma imposição. Era uma espécie de uma luta contra os valores de quem ditava coisas como: ‘corta o cabelo, escolhe outro tipo de música’…

Como foram as reações no meio escolar?

Na escola, em 700 alunos, só havia dois ou três metaleiros. Tínhamos uma fanzine, uma banda e passávamos muito tempo dedicados à nossa música. E as pessoas não nos entendiam muito bem porque tinham outros objetivos: se calhar, queriam mais andar de motas… Eu, sem juízos de valor, interessava-me mais esta coisa do heavy metal: pensar nas indumentárias, na música, nas letras. E este estilo é bastante livre.

É um estilo de vida?

Sim, é um estilo de vida porque se aprende alguma coisa com as letras das músicas, por exemplo, que falam muito sobre história, filosofia, acontecimentos… Aprendi muito com esta música. É um estilo muito mais cultural do que as pessoas pensam.  

E como reagiu a tua família?

Queriam o melhor para mim e não havia nenhum precedente na família – os meus pais não conheciam os Tarântula ou os Ibéria (risos) – e, se calhar por amor e proteção, deram alguma luta. E ainda bem. Foi a prova de que realmente valia a pena. É aquele cliché: se os pais não gostam, talvez seja mesmo por aqui o meu futuro (risos)… Naturalmente, eles queriam as melhores oportunidades para mim, que estudasse, e eu compreendo…Mas há coisas que não se escolhem e que nos escolhem a nós. Nos Moonspell, ninguém se sentou e tomou a decisão: ‘Olha, vamos ser uma banda de heavy metal’. Foi acontecendo…e continua a acontecer.

Estudaste filosofia: não aparenta haver ligação com o heavy metal, ou há?

Como estudante de filosofia e interessado nesta área, sempre achei que a maioria dos nossos problemas políticos, sociais e económicos se deve também ao afastamento dos filósofos dos lugares de aconselhamento. Todos os grandes imperadores tinham uma assembleia de filósofos e nós temos um Conselho de Estado em Portugal mas, além do Eduardo Lourenço – o único filósofo que lá está –, é só formado por pessoas ligadas à economia, à banca, aos partidos políticos… A Filosofia sofreu um grande revés, sobretudo no século XX.

Chamam-te o metaleiro-filósofo…

A Filosofia não é uma disciplina técnica, ensina o pensamento, o empírico, o mundo das ideias. E esse é um mundo completamente feito para a fantasia e para os assuntos de que o heavy metal trata e, por isso, foi logo uma relação automática. Tentei aproveitar ao máximo tudo o que tinha aprendido para implementar umas letras mais filosóficas e que fossem um pouco mais longe do que as outras bandas portuguesas. E estamos a preparar um disco assim…

Como vai ser esse novo disco?

Vai sair para o ano e é em português. É sobre o terramoto de Lisboa (1755). Não apenas sobre a catástrofe mas sobre tudo que aconteceu depois. E onde é que eu contactei com isso? Na escola. Primeiro, em História, falando de toda a reconstrução pombalina, das políticas, do termo da Inquisição… E, depois, em Filosofia, com o professor Viriato Soromenho Marques. Tudo isto aprendi na escola e tenho na minha cabeça, não aprendi na Internet nem no Google.  

É sobre o lado negro do terramoto?

Vai ser sobre uma Lisboa devastada sim, mas sobretudo sobre o que as pessoas fizeram para reconstruir e para levantar de novo. É um disco que fala sobretudo da relação das pessoas com Deus. Até ao terramoto, Deus não falhava e, depois, começaram a surgir em Portugal movimentos ateístas e críticos. Foi uma espécie de Iluminismo tardio.

E qual é a tua relação com Deus?

Nenhuma…ou pouca. É um grande foco de interesse. Não sou fã do monoteísmo e acho mais natural uma religião tipo a hindu, que nunca se tentou impor de forma violenta como hoje está a acontecer com algumas fações mais radicais do islamismo, por exemplo. Cada vez mais me convenço que o mundo passaria melhor sem religião.

Que futuro prevês para o mundo, perante o cenário atual?

A guerra é o pior que pode acontecer às pessoas. Já estive mais otimista. Não é fácil. Politicamente, praticamente todos os governos do mundo têm falhado. Cada vez mais isto é uma guerra entre potências e mentalidades. Na Europa, Estados Unidos e Rússia, em vez de tentarmos acalmarmos disputas que já são milenares ainda estamos a acicatar mais os ânimos… E vê-se na Europa de Leste e nos países do norte um preocupante crescimento da extrema-direita.

Tens confiança no futuro da Europa, no projeto europeu?

A Europa só se mantém no papel. Já há algum tempo que não acredito no projeto europeu. Era um projeto bonito de filósofos mas não correu bem. A Europa sempre teve várias velocidades e grandes assimetrias. Por exemplo, não me faz confusão nenhuma o PCP apresentar um projeto para sairmos do Euro, até acho inteligente… 

Acreditas então no projeto de Governo, com a conjugação de forças à esquerda?

Acredito, sim. E não sou só eu. Estão a confirmar-se indicadores de que a política do PSD não era feita para os eleitores…  

Onde é que vais buscar inspiração?

Cada vez sou mais específico e temos trabalhado em coisas conceptuais. Mas a inspiração vem de tudo. No primeiro disco, ‘Wolfheart’, fomos buscar inspiração à natureza, ao paganismo, às religiões mais naturais, à imagem do lobo…Se fizermos ‘fast forward’ 21 anos estamos a falar de extinção [disco ‘Extinct’], da extinção do lobo ibérico. Para os Moonspell, os grandes assuntos sempre foram o amor, a morte, as relações, o reino animal, a religião…

O misticismo não é obrigatório…

Não é obrigatório e também não somos nós que o criamos. O que faz os Moonspell manterem-se juntos há 25 anos é todo o projeto: os momentos mais interessantes na vida de um músico é compor e depois passar para a parte ao vivo. Mas todo o misticismo vem do lado mais lunar e da relação dos fãs com os Moonspell, que é muito profunda. Eles vestem as nossas camisolas, sabem de cor as nossas letras…

O expoente máximo não é estar em palco?

É o momento da verdade. É o expoente máximo para o qualquer músico se prepara.

Tens um público de eleição?

O português. O fã português é especial que se envolve com a banda e há uma identificação com os Moonspell. México e Rússia também.

O vosso mercado é maioritariamente internacional…

Em 100 concertos num ano, cinco ou dez são em Portugal.  

Imaginas-te num circuito mais de festas da aldeia?

Sim, e já fomos à Moita, Benavente, Corrois e Porto de Mós. Foi um sucesso. Principalmente Porto de Mós corre o risco de se tornar memorável: foi lá uma banda de heavy metal e não só para fazer barulho (risos). Adoro esses sítios, por causa da diferença. É muito engraçado. Por exemplo, em Benavente fomos corridos por uma senhora que só nos gritava: “Vocês não podem estacionar aqui. Vou já falar com a fiscala”… E nós vem tentámos explicar que éramos da banda que ia tocar… (risos) 

E um espetáculo memorável para os Moonspell?

Foi há 20 anos, no Convento do Beato, em Lisboa. Foi o nosso primeiro concerto esgotado em Portugal. O Beato nunca tinha recebido um concerto de heavy metal e todo aquele ambiente do [disco] ‘Irreligious’ permitiu-nos fazer ali um espetáculo extremamente revolucionário, com um enorme vídeo wall, uma exposição de fotografias da banda – que, mal acabou o concerto, foram todas roubadas (risos). Ninguém acreditava que fosse correr bem e foi memorável, foi uma espécie de consagração dos Moonspell. E foi aí que sentimos, depois de levar tantas negas em Portugal: “Olha, se calhar, isto é um país que nos está a seguir”.

Sentiste algum ostracismo no início?

No início, durante e vai sempre continuar (risos). O nosso estilo foi sempre visto como um estilo de nicho mas se mete 100 mil pessoas no ‘Hell Fest’, um festival só de bandas de heavy metal, não pode ser um estilo de elite. É como tudo em Portugal: umas pessoas definem o gosto e outras acreditam. Quem vai aos concertos sabe que isso é mentira.

Isso chateia-te?

Não. Mas ninguém gosta de ser branqueado. Toda a gente gosta de ver o seu trabalho reconhecido. Mas nós somos mais do estilo: estar e fazer do que falar sobre isso.

E que outros géneros experimentaste: já tentaste cantar fado?

Sim, com os Amália Hoje… mas não era bem fado. Era a música fantástica do Alain Oulmain e foi um grande desafio. Mas os vários tipos de vozes que faço nos Moonspell são já um grande desafio para mim. Eu não sei cantar fado. Mas estou aberto a novos projetos, claro.

Fizeste, por exemplo, um dueto improvável com a fadista Carminho para um anúncio [da Optimus, em 2011]. Com quem é que gostarias de fazer agora outro dueto?

Um dos cantores que gostava de ter a cantar com os Moonspell era o Peter Murphy, dos Bahaus, mas até mais por causa da carreira dele a solo. Em Portugal, por exemplo, via-me a fazer uma colaboração com o Paulo de Bragança, a Mísia…

E se fosse com um político, com quem é que gostarias de fazer um dueto?

O Miguel Tiago, do PCP. Ele é nosso fã mas não sei se tem talento musical. Agora vai aos nossos concertos e é um grande fã.

Voltando à música, os Moonspell têm uma política de autogestão. Quem é que assume mais a componente estratega?

Sim, para aí há uns seis anos que é assim. Dividimos a banda ao meio, tipo Tratado de Tordesilhas: eu e o Pedro Paixão fazemos mais a parte de estratégia; O Ricardo [Amorim], o Mike [Gaspar] e o Aires [Pereira] estão mais ligados à parte musical, às tournées, etc.  

E em termos de gestão familiar, como é que se faz com um filho [Fausto, 4 anos], uma mulher [Sónia Tavares, vocalista dos The Gift]?

Faz-se com muito sacrifício. Nada é comparável ao estar em família, com a Sónia e o Fausto. Mas somos os dois músicos e isso traz entendimento e compreensão da logística extra. Agora a saudade é muito mais intensa. 

Nunca foi contigo numa tournée?

Não, uma tournée não é sítio para uma criança. Provavelmente já estará em idade de ir a um festival para curtir ver o pai tocar à tarde. Mas já foi às gravações, a um sound check dos Moonspell. 

Como é que o Fausto reage à tua música?

Adora, sabe as músicas e, quando saiu o ‘Extinct’ [2015], ele foi dos maiores fãs. E distingue perfeitamente o que é o rock, o heavy metal, o que são os Moonspell, os The Gift. Mas não o empurramos para nada, não o queremos influenciar, sabemos bem a vida nómada que temos e o peso que é ser filho de músicos e sujeito a comparações.

Com 25 anos de carreira, 11 álbuns, 1 disco de ouro, 3 de prata, um Prémio MTV, milhares de fãs e concertos nos quatro continente – o que falta fazer?

O ano passado fomos tocar a Israel e Malta e já nos perguntaram: já fizeram tanta coisa, isso ainda é importante? Sim, é importante. Há este objetivos – levar a nossa música ao Japão, à Austrália… – que podem parecer pequenos mas ajudam a completar-nos. Nunca tivemos o sonho de ser os Metallica, não temos um objetivo brutal. Mas gostaria de fazer uma pequena tournée com os Metallica e com os Iron Maiden mas, de resto, queremos continuar a fazer o que já fazemos. 

Os Moonspell fazem 25 anos em 2017. Alguma vez pensaram acabar?

Nunca. Sempre achámos que era parvoíce acabar tendo esta história insólita. O feeling geral é de grande fraternidade e temos relações que extravasam para além da banda: saímos uns com os outros, somos padrinhos dos filhos uns dos outros. Somos uma grande família…funcional e disfuncional, como todas (risos).  

 20 anos ‘Irreligious’

Que significado tem agora este concerto de celebração dos 20 anos de ‘Irreligious’?

Vai ser gravado um DVD e tem de ser um espetáculo memorável que recrie fielmente estes 20 anos: desde o ‘Wolfheart’, passando pelo ‘Irreligious’ até ao ‘Extinct’. Faltava gravar um DVD em Portugal, nós somos uma banda portuguesa. O DVD é importante, é uma espécie de documento.

Falando em documentos, também tens uma série de registos: blogues, livros de poesia, ficção. Escrever é uma catarse?

É, sobretudo é uma maneira de desocupar o cérebro. Tive vários blogues e arrependi-me praticamente deles todos. As pessoas não precisam de mais uma voz na Internet. Tenho é um blogue onde vou escrevendo textos sobre filosofia – theportuguesewolf.com. Agora traduzi dois livros meus, de poesia, em inglês. Mas não sou escritor, sou um músico que gosta de escrever. 

Vais publicar algum livro em 2017?

Uma biografia dos Moonspell, que vai ser escrita pelo Ricardo Amorim, jornalista da ‘Loud!’ [revista de heavy metal]. Também estou a escrever as minhas mémoires, num estilo trágico-cómico, sobre o meu crescimento como metaleiro na Brandoa, mas não será para 2017. Se calhar, com o novo disco sobre o terramoto também vamos lançar um pequeno livro.