25 de Abril Coliseu Porto

Hora: 21:30
Promotor: IM.PAR-ORGANIZAÇÃO DE EVENTOS CULTURAIS
Preço: De 20,00 a 70,00€
Idade: M/06

Voz maior da Música Popular Brasileira, leva já mais de 50 anos de uma carreira cheia de êxitos. Diz gostar mais de cantar músicas dos outros e, com Zeca Afonso, adivinhou o 25 de abril. É nessa data que vai atuar no Coliseu do Porto, com Teresa Cristina, num concerto intimista, com sabor a samba e que é… “como voltar a casa”. A pintura, o ensino ou o cinema ficaram a perder um talento, mas Caetano escolheu cantar porque “a música faz sentir tudo mais profundamente”.

Texto: Sofia Canelas de Castro

Foto: Bruno Berezinski

São cinco décadas de músicas. Que sucessos não se cansa de cantar? E quais já o cansam?

Nunca me cansei de cantar “Coração Vagabundo”, “Tá combinado”, “Esse Cara”. Gosto mais de cantar músicas dos outros, mas agora tenho tido prazer em cantar coisas minhas de que não tinha muita lembrança: “Este Amor’” e “Você Não Gosta de Mim”, principalmente. Às vezes já me surpreendi achando ‘Você é Linda’ e ‘Terra’ longas demais.

Quais são os nomes da nova geração da música brasileira?

É difícil dizer. Há muita gente nova. E muita coisa é boa. De Ana Claudia Lomelino a Thiago Amud, de Anitta a Ígor Canário, de Emicida a Luana Carvalho. Lembrei apenas alguns nomes.

Que música o inspira e que ingredientes tem que ter?

Inspiram-me sempre as músicas bonitas. Um samba como “Camisa Amarela”, de Ary Barroso; uma marcha como “Boas Festas”, de Assis Valente; uma canção como “Love for Sale”, de Cole Porter; qualquer música cantada por João Gilberto; “Três Apitos”, de Noel Rosa, cantada por Aracy de Almeida; “Come Together”, com os Beatles; quase qualquer coisa cantada por Ella Fitzgerald; “You Don’t Know What Love Is”, cantada por Chet Baker; qualquer coisa cantada por Amália Rodrigues… Tudo isso faz a gente se tornar mais capaz de sentir mais profundamente as coisas.

Alguma vez se imaginou com outra profissão?

Pensei em ser pintor, professor, cineasta. Acho que poderia exercer qualquer uma dessas atividades melhor do que posso fazer música. Mas não aconteceu.

Que música portuguesa conhece e de que artistas gosta?

Ester de Abreu, que viveu no Brasil e me encantou desde a infância; Amália Rodrigues, que descobri porque amava os fados cantados por Ester e que foi uma das maiores artistas da música em qualquer cultura; Zeca Afonso, quando gravou o ‘Milho Verde’ (que me fez adivinhar o 25 de Abril); Maria da Fé, quando a ouvia no Senhor Vinho; Dulce Pontes, com sua voz potente e seu talento gigantesco; Marisa, António Zambujo, Ana Moura, Carminho… são muitos.

Imagina-se ou gostaria de cantar fado com quem?

Já tive o descaramento de cantar fados diante de plateias portuguesas. Já flutuei entre o sotaque brasileiro e o lusitano em ‘Confesso’, já atingi o lusitano quase totalmente em ‘Graça Divina’, de Jorge Mautner. Já quase aceitei realizar o projeto de fazer um álbum só de fados portugueses.

O que o distrai e faz relaxar e aproveitar a vida?

A brisa de Salvador, na Bahia. A voz de Paulinho da Viola. As rimas de Chico [Buarque]. As melodias de Carlos Lyra. A música de Tom Jobim orquestrando João Gilberto.

Como vai ser o espetáculo aqui em Portugal?

Espero que como tem sido em toda parte: simples e elegante.

Como conheceu a Teresa Cristina? O que o levou a fazer esta parceria para um concerto com repertório do Cartola [1908-1980]?

Conheço a Teresa há tempos. Aproximámo-nos quando eu estava a gravar o álbum ‘Zii e Zie’. Ela tinha gravado ‘Gema’, um samba meu, e convidei-a para participar num dos concertos que eu estava a fazer. De perto, a Teresa era ainda mais fascinante. Conhecia todas as minhas músicas e também a de vários outros compositores: brasileiros e não brasileiros. Fiquei encantado. Mais recentemente, ela fez este concerto só com sambas de Cartola e eu fiquei maravilhado com o que vi. Bob Hurwitz, presidente do selo Nonesuch, de Nova Iorque, decidiu lançá-lo mundialmente. E pediu-me que fizesse uma apresentação nos Estados Unidos na qual a Teresa mostrasse parte do trabalho num espetáculo de abertura. Então eu decidi entrar em cena antes dela, falar brevemente sobre o que ela ia apresentar e voltar para cantar sozinho – e fazer alguns números com ela para fechar a noite.

Uma carioca e um baiano: cruzamento de culturas ou, no fundo, tudo é música brasileira cantada em língua portuguesa?

Lygia Clark, a grande artista plástica, dizia que a Baía é o Velho Testamento e que o Rio é o Novo Testamento. Cresci ouvindo todos dizerem que o samba nasceu na Baía. Hoje já não se diz isso. Nem há mais os espetáculos do Cassino da Urca [mítica sala de espetáculos no Rio de Janeiro], em que todos os finais eram uma exaltação à Baía. Mas a ala das baianas é um item tradicional obrigatório de todas as escolas de samba do Rio. Salvador foi a primeira capital do Brasil. O Rio foi a capital da colónia, do Império e da República. Mas tudo começou na Baía.

Pensam repetir esta parceria com outro repertório?

Sempre haverá motivos para colaborar com Teresa.

O samba (e a música em geral) ajuda a espantar a tristeza?

Sem dúvida.

Complete a frase: atuar em Portugal é…

… como voltar a cantar em casa.