CRÓNICA

Março/2017

Desde o início que o som está vinculado a um acontecimento de que nos lembramos ou a que queremos aceder. O Mundo tem o seu estrondo inicial, o bebé o seu choro. Desde o momento demiúrgico até hoje, o ser humano aprendeu a articular sons, a associá-los a formas e a dotá-los de sentido. E fez mais ainda. Emancipou o som da forma e descobriu as capacidades xamânicas da música.

Através de melodias, acompanhadas ou não por palavras, consegue transportar-se através do tempo, sair do corpo e quase atingir a ubiquidade. Aquela música que nos marcou num passado mais ou menos recente é um portal do tempo. É por esse portal que revisitamos os momentos mais importantes da nossa existência. Saímos do nosso corpo e viajamos motivados pelos sons. É uma hipnose que nos permite estar em muitos lugares em simultâneo. Poucas artes (talvez nenhuma) conseguem elevar o ser humano como a música.

Criaram-se instrumentos de sopro, corda e percussão, escolas de música contemporânea, erudita ou jazz, ou simplesmente reuniram-se algumas pessoas em garagens e daí formaram bandas. As manifestações artistico-musicais tornaram-se o espelho da cultura e da origem dos seus intérpretes. É através dessas criações que nos descobrimos e nos lembramos. Mais do que uma fotografia, uma música reflecte a nossa existência.
Somos feitos de histórias, afirmou Afonso Cruz. E de música, também.

Mário Rufino por Vitorino Coragem

 Mário Rufino


JORNALISTA