Lançou recentemente “Branco”, onde conta com a composição de nomes incontornáveis da música portuguesa como Sérgio Godinho, Mário Laginha ou Nuno Prata e Peixe dos Ornatos Violeta. Também conta com outros que para lá caminham, como Luís Severo, André Henriques dos Linda Martini e Beatriz Pessoa. Vai apresentá-lo no 15 de Maio no Teatro Tivoli BBVA em Lisboa e 23 de Maio na Sala Suggia da Casa da Música no Porto. Nesta conversa honesta contou-nos mais sobre si, sobre “Branco” e sobre estes 2 concertos.

Começaste pelo fado mas parece que a tua vida trouxe-te muita coisa à tua música.
Comecei no fado mas o meu fado, já desde o primeiro disco, é sempre uma coisa muito alternativa. Se contabilizar todos os meus discos e se olhar para aquele material todo, chego à conclusão que 80 ou 90% do material que lá está é inédito. E dentro do inédito há obviamente fado tradicional, mas tens uma pequena percentagem de fados. O que é acontece é que sempre fui catalogada nesse meio musical. E eu gosto profundamente de fado. Hoje talvez ainda mais do que quando comecei a cantar. Eu canto fado ainda hoje. Canto sempre fado, faz parte do meu concerto. Só que foi sempre uma coisa muito alternativa. Gostando, gosto ainda mais de ir para outras paragens e descobrir outras coisas. E foi o que me trouxe até este disco, até ao “Branco”.

E talvez por isso apareçam estas colaborações neste teu novo disco, alguns que já tinham colaborado contigo no disco anterior.

Sim, uma boa parte deles. Quando tu percebes que estás a fazer um bom trabalho e o que resultou da parceria com aquelas pessoas, não vale a pena tentar mudar alguma coisa. É simplesmente continuar a fazer coisas bem feitas. E nós temos uma energia porreira juntos. Daí termos voltado a repetir a dose. Para mim, volto a dizer, não é uma coisa estranha. Não é um corpo estranho de repente pegar nestes autores e nestas musicas e adaptar aquilo que eu sempre fiz.

E apesar de continuares a trabalhar com estas pessoas, a música continua a soar tua. Não soa à música dos outros.
Sim, ainda bem! Eu acho que me aproprio das coisas. Olho para elas e tento perceber o que os autores querem dizer com aquilo. Tento entrar dentro dos textos de uma forma quase obsessiva a dada altura, até que eles ficam mesmo meus. Se calhar é por isso que ganham um cunho tão forte. Também porque não tenho uma personalidade fraquinha. (risos) Eu pego nas coisas e elas têm de ser minhas, acabou. Sou eu que as vou cantar.

E é preciso uma personalidade forte para conseguir juntar tantos nomes emergentes e definitivos da música portuguesa para trabalhar contigo. Nem que seja para os convencer. Não é para qualquer um.
(risos) Convencê-los não é difícil. Sem ser sedutora, porque acho que não passa por aí! (risos) Mas porque eu acho que as pessoas acreditam naquilo que eu estou a fazer, que é um trabalho válido e sério. Apesar de tentar ser o mais leve possível, tem um cunho e de seriedade e coisas bem feitas que dá uma garantia a quem compõe e às pessoas que tenho que convencer, como tu dizes. Acho que é mútuo aquilo que vou dizer: é um prazer trabalhar com estas pessoas. É muito fácil. São pessoas que fazem coisas muito bem feitas e com muito empenho, com muita verdade. Era exactamente isso que eu procurava.

Cresceste para além do fado. Já não és a Cristina Branco do fado, és simplesmente a Cristina Branco e é isso que as pessoas querem ouvir.
Sou só a Cristina Branco, não sou a Cristina Branco de lado nenhum.

Ser só a Cristina Branco já é muita coisa, não é redutor!
É muito. Eu também acho que sim. Acho que houve uma libertação de uma série de filtros e de véus que estavam aqui a obstruir a minha personalidade e mesmo a forma como eu canto. Libertei-me de uma série de coisas e muito tem certamente a ver com a idade. Sabes quanto te deixas de te importar com determinadas coisas, passas a ser realmente tu sem que te preocupes com aquilo que os outros possam achar ou gostar menos ou mais. És tu apenas. Passas a ser tu. E a forma como tu olhas para aqueles autores, como olhas para as músicas deles, como tu olhas para o teu público… Ou melhor, como tu queres que o teu público te veja. Que é na verdade. É na tua verdade.

E como é que esperas que as pessoas te vejam agora nestes concertos no Teatro Tivoli BBVA e na Sala Suggia da Casa da Música?
Olha, eu quero muito que me vejam e que me percebam livre todos os contextos possíveis e imaginários. É um concerto real, cru, intenso. Onde eu vou contar algumas histórias. Este concerto faz-se também com mais 3 músicos que respiram a minha essência. Até porque acabámos por fazer a produção do disco juntos, eles percebem exactamente o que eu sou. E o que nós acabámos por levar para palco é exactamente o que está no disco, com alguns detalhes: algumas surpresas e pormenores que tornam o concerto efectivamente mais leve. Vamos utilizar tudo o que temos disponível, ou seja, apenas os nossos instrumentos e as nossas vozes, para fazermos coisas diferentes. Existirão percussões e pequenas brincadeiras, mas que partem de nós. Coisas orgânicas feitas por nós. Não há manobras de diversão.

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