CRÓNICA

Fevereiro/2017

Mais de dois séculos depois da separação entre Igreja e Estado, fazia bem a Hollywood recordar o seu papel no mundo. No rescaldo das eleições na América, uma coisa ficou clara: estamo-nos todos nas tintas para o que dizem as celebridades. Queremos saber o que fazem, mas jamais faremos o que querem.

Donald Trump ganhou, e os ecos saídos das mansões de Beverly Hills perderam-se a caminho da América rural. Não fiquem surpreendidos. Afinal – mesmo no mundo pós-Kardashian – é reconfortante saber que as pessoas conseguem separar a arte do artista.

Em Janeiro, Johnny Depp subiu ao palco nos People’s Choice Awards. Foi coroado “Ícone Favorito” do ano, meses depois de ter sido filmado num caso de violência doméstica. Woody Allen, um dos realizadores mais prolíficos da história do cinema, foi acusado de violar uma filha adotiva antes de se ter casado com outra. Ainda assim, aos 81 anos, teve carta branca da Amazon para fazer uma nova série de TV. As pessoas recusaram-se a julgar a obra pelo homem, e a confundir política com entretenimento.

Daqui a menos de um mês, a Academia vai entregar os seus prémios anuais. Na corrida para o Óscar está Casey Affleck, numa das performances mais poderosas e contidas do ano. Com o burburinho do prémio, ressurgiram acusações antigas de assédio sexual. A indignação fez-se sentir nos social media. Ousará a Academia premiar um ator com historial sexista? É pouco provável, mas não interessa. Mesmo que a Hollywood lhe vire as costas, o público nunca o fará.

cronicafev

Duarte Garrido


ENTERTAINMENT PRODUCER, Sky News