Vinte anos depois de abrir as portas e sempre com acesso gratuito, o Museu Coleção Berardo, no CCB, passou a cobrar entradas. O ‘pai’ do espaço, Joe Berardo, foi o primeiro a comprar bilhete. “Triste e desiludido”, confessa. Porque “é essencial tornar a cultura acessível a todos”

Texto: Sofia Canelas de Castro

Joe Berardo fala sem papas na língua à Ticketline. “Triste e desiludido” por o seu Museu Coleção Berardo, no CCB, ter passado, desde 1 de maio, a cobrar entradas – por imposição do Estado –, foi o primeiro a comprar bilhete. Condecorado em vários países, garante que não precisa de reconhecimento. E que faz tudo…”my way”.

Desde 2007 que o Museu Berardo era gratuito e agora o Estado português exigiu, na renegociação do contrato de comodato da coleção, a cobrança das entradas. Concorda?
Fui o primeiro a comprar bilhete. E muito triste. Eu venho de famílias humildes e quando era miúdo e queria ir ao museu não podia porque não tinha dinheiro. O dinheiro, na altura do pós-guerra, nos anos 1950, era um bem escasso. Então um dia disse para mim mesmo: ‘Quero vir a ter um museu que seja muito bom. E livre!’ E porquê? Porque os intelectuais, os artistas, os políticos e os governantes entram todos de borla. Só pagam mesmo as famílias e é elas que eu quero ajudar e que visitem os museus.

É essencial democratizar a Cultura?
A Cultura tem de ser acessível a todos. Qualquer dia, até põem a praia a pagar!?

A Cultura está bem entregue às mãos do Ministro da tutela, Luís Filipe de Castro Mendes, ou este é um setor mais encarado pelo Governo como um ‘parente pobre’?
Estou tão desanimado com esta atitude. Mas tive de conceder, a vida é mesmo assim. A culpa não é de um ministro, é como diz: parece que a Cultura é o parente pobre e não é uma prioridade do Governo. Dou-lhe um exemplo: nas primeiras reuniões do Governo britânico, na Segunda Grande Guerra, quando todos discutiam os cortes necessários no país, chegou a vez do Ministro da Cultura perguntar ao primeiro ministro [Winston Churchill] qual era a ideia para reduzir a cultura. E a resposta foi: ‘Temos de defender a nossa cultura. Duplica-se a Cultura!’ Está a ver a diferença de atitude?

O Prémio Novo Banco Photo foi instituído em 2004 pelo ex-Banco Espírito Santo (BES), em parceria com o Museu Coleção Berardo, em Lisboa. É uma grande perda o Prémio passar a bienal e não se realizar este ano?
É uma perda sim.
E a recente saída do diretor artístico do Museu Berardo, Pedro Lapa, foi pacífica?
Foi.

Escolheu interinamente para o cargo a Rita Lougares. Pensa em convidar alguma outra pessoa para o lugar?
Não tenho pressa. Eu acredito em dar oportunidade às pessoas que trabalham connosco. E ela é uma mulher capaz, embora os intelectuais queiram pôr aqui outras pessoas…

Concorda com o conceito das quotas, de colocar mulheres na liderança?
Não há dúvida de que as mulheres têm sido subvalorizadas. Quem somos nós sem as mulheres?! A mulher é a gestação, a origem, e a humanidade depende das mulheres. E quando uma mulher se dedica a um projeto é muito perseverante. Agora uma mulher também tem que ter tempo para ser mãe e isso, hoje em dia, é cada vez mais difícil. Em Portugal, e em quase todo o mundo, as mulheres trabalham mais do que os homens.

Voltando às suas origens, foi para a África do Sul aos 18 anos e aí passou a ser Joe – José Manuel Berardo. O que recorda desses tempos?
Como é que se diz às pessoas na África do Sul [onde o idioma predominante é o inglês] para me chamarem José Manuel? Então ficou Joe. Foram tempos inesquecíveis! Há aquela ideia de: ‘America, I have a dream’, não é? Mas eu nunca quis ir para os Estados Unidos, nem Venezuela ou Brasil, países onde tinha família. Eu queria mesmo era ir para África do Sul. Lá há mais refinamento.

O primeiro museu que inaugurou, em 1997, o Museu de Arte Moderna em Sintra. Já sonhava um espaço em nome próprio no coração da capital? Viria a abrir o Museu Coleção Berardo, no CCB, em 2007.
Sim, desde o início. O centro de Lisboa não tinha exposições. Basta ver os orçamentos que havia na altura. Ainda hoje em dia não sabem o que custa montar e manter uma exposição.

Perdeu milhões com o BCP, tem dívidas à CGD e Novo Banco. Como gere este lado financeiro?
Eu acredito que eles é que me devem dinheiro. Fui enganado, tal como todos os portugueses. O sistema financeiro hoje já não é um banco, é virtual. Quem é o banco agora? São fundos, capital de risco…

Mas como é que reage quando vê o seu nome nos jornais, como no caso recente da investigação do Expresso que revelou que tem uma empresa em Malta, país conhecido pelos benefícios fiscais?
É para venderem jornais. É verdade que criei duas companhias em Malta. Eu sou emigrante, residente em África do Sul… Quando vim para Portugal, trouxe dinheiro para cá e perdi muito. Ou melhor, não perdi, estão [os advogados] a resolver. Quando foi aquela coisa do ‘Furacão’ [‘Operação Furacão], eu não concordava e paguei. O meu advogado disse: ‘Paga, senão vai ser uma guerra para dez anos’. [n.r.: Berardo pagou 550 mil euros para evitar ser acusado de fraude fiscal]. Isto é uma maneira de ajudar [o sistema financeiro] indiretamente. Eu também jogo no Euromilhões e é uma maneira de ajudar a Santa Casa da Misericórdia.

Quer e vai abrir novos museus?
Já está a avançar em Alcântara, em Lisboa, um espaço arte nova e art déco. A parte da frente já está feita e estamos à espera da licença da Câmara para abrir o ‘Under the Bridge’ ainda este ano. E é art déco, lindo! Quando vi aquele prédio, art déco, com uma escultura enorme, disse logo: ‘Vai ser aqui’.

É também um amante de vinhos e produz – Quinta Bacalhoa. Tem hábitos de vida saudáveis ou come de tudo e bebe bem?
Sim, antes não, mas agora como para me preservar: muitos legumes, peixe, pouca carne, muita água. Não é fácil (risos).

E vinho, bebe só do seu? 
Só do meu, nunca me apanhará num restaurante sem ser a beber o meu vinho. Não vou promover os outros vinhos, não é?! (risos)

Quantas obras, ao todo, tem na sua coleção? Sabe o Nº exato? 
Ui, muitas. De qual coleção, de todas? Mais de 200 mil. Eu já tenho sete museus abertos. Mas por exemplo, o Presidente da República nunca aqui veio, os ministros raramente veem. E porquê? Porque eu não sou um lambe-botas”. Faço as coisas ‘my way’ [à minha maneira]. Já fui condecorado em todo o mundo, tenho a chave de ouro de Miami e aqui nunca me deram nada.

Fica sentido, gostava de ter esse reconhecimento? 
Não, eu não preciso desse reconhecimento. Faço-o por mim. E gosto de mostrar as obras, as exposições e dar aos outros.


Há alguma obra que ainda não tenha que gostasse muito?

Ah, não posso dizer! (risos) Todos os dias me aparecem coisas para comprar.