Há 25 anos atrás, os Mão Morta lançaram o álbum Mutantes S21, que fez enorme sucesso. Dia 18 de novembro em Lisboa, serão apresentados pela primeira vez em concerto todos os temas do álbum, incluindo 3 nunca tocados ao vivo.  A estes acrescentam-se outros 6 temas seleccionados pela banda, tendo por base letras que remetem para ambientes urbanos, relatando estórias de cidades. Tivemos a oportunidade de falar com Adolfo Luxúria Canibal, vocalista dos Mão Morta.

O que podemos esperar deste concerto?
Isto é um dos três espetáculos que temos estado a apresentar este ano. Este, concretamente, tem a ver com os 25 anos do álbum Mutantes S21. Com este concerto queremos apresentar os 9 temas do disco, sendo que três deles vão ser tocados ao vivo pela primeira vez este ano, mas também outros temas vão ser apresentados portanto, ao todo, vamos tocar 15 canções, todas elas relacionadas com a temática urbana das cidades que faz parte do Mutantes S21.

Para não ser apenas um mero exercício apelativo à nostalgia e ao passado, a propósito do disco ter sido lançado como edição especial a vinil e com banda desenhada, pensámos em desenvolver o lado gráfico deste projeto ao vivo, que nasceu há 25 anos. Nessa altura era impossível realizá-lo devido à pouca tecnologia existente há 25 anos atrás. Como tal, convidámos 15 ilustradores e artistas plásticos portugueses para ilustrarem cada um dos temas que fazem parte do espetáculo.

Vai ter uma componente visual muito forte?
Exatamente. Essas ilustrações são depois digitalizadas e trabalhadas por um artista digital, o João Martinho Moura, que vai manipulá-las ao vivo. E é este tipo de espetáculo muito interativo e com muita multimédia que queremos mostrar ao público de Lisboa, depois de já ter apresentado noutros locais.

Este álbum é um ponto de referência porque foi a transição do vinil para o CD. Desde essa altura o que é que acha que mudou no panorama musical em Portugal? 
Mudou muita coisa (ri-se). Quer a nível de indústria, quer a nível artístico, o vinil desapareceu e só agora está a ganhar força, apesar de ainda não ser significativa. Houve uma crise enorme do CD pois era a nova esperança da indústria nos anos 2000 mas, de repente caiu. De qualquer maneira a possibilidade de poder trabalhar com digital fez com que fosse muito mais fácil, barato e caseiro a produção da música e o acesso aos discos. Houve uma grande explosão das emissões discográficas por causa desse fenómeno.

Houve um apuramento técnico de todos os músicos sem comparação com que se encontrava nos anos 80/90. Tecnicamente os músicos desta geração dão uma “abada” monumental aos velhos músicos. Efetivamente, as coisas ficaram muito mais formatadas, menos interessantes e previsíveis, que contrasta com a liberdade criativa e da forma como as pessoas tentavam ultrapassar a sua inércia técnica. As grandes diferenças são estas, por um lado os formatos mudaram, a facilidade de gravação é cada vez maior e a própria apresentação da música alterou bastante.

Vocês têm uma carreira longa, acham que é possível viver só da música em Portugal?
É possível, o que não é possível é viver da música que se quer fazer estritamente, ou seja, sem fazer concessões. O mercado é demasiado pequeno e quem não quer agradar “gregos e troianos” acaba por ficar com um disco mais pequeno do que o próprio mercado. Desse ponto de vista é impossível sobreviver da música em Portugal. Aqui em Portugal ou és um músico “mercenário” ou um artista com uma carreira própria, nome próprio e que saiba selecionar muito bem que projeto são lançados. Têm que estar de acordo com o que são as expectativas do mercado e não com o gosto pessoal do artista.

Gostam de cantar as canções antigas ou as mais recentes? 
Nós gostamos de cantar todas, depende muito do momento, é evidente que quando fazemos um disco novo sabe-nos melhor tocar as músicas novas, pois são as que para nós são novidade e colocam-nos num patamar de exploração do som. As canções mais antigas são mais rodadas e tocamos com “uma perna às costas” mas, também gostamos de pegar em canções antigas que normalmente não tocamos e reencontrá-las, voltar a descobrir, fazer novos arranjos. No fundo o que realmente gostamos de fazer é de encontrar dificuldades no som e resolvê-las, de modo a ultrapassarmos nós próprios.

Vocês estão a preparar um novo álbum?
Sim. Estamos a preparar um novo álbum, que era para sair este ano, no entanto, com todos os concertos que estamos a dar, foi adiado para o próximo ano.  Ainda não há data definida mas, em princípio será no segundo trimestre. Temos algumas coisas já feitas, um conceito perfeitamente planeado, falta compor o que falta e gravar o projeto. Foi um ano com muito pouco tempo para nos concentramos na criação.

Se tivessem que escolher algum artista internacional para interpretar um dos vosso temas, têm algum de eleição, que se encaixasse no vosso perfil musical?
Bem, esquecendo o constrangimento que 99,9% dos artistas internacionais não falam português… É evidente que gostava de ver alguns artistas internacionais a tocarem os Mão Morta. De caras, vejo Michael Gira ou Nick James. São as nossas grandes referências.

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