20 de Maio Coliseu Porto

Hora: 21:30
Promotor: Everything Is New
Preço: De 20,00 a 50,00€
Idade: M/06

Em Portugal com uma agenda recheada de concertos, foi no bairro das embaixadas, no Restelo, que encontrámos o cantor angolano Matias Damásio. Descontraído e alegre, comia uma banana enquanto o tripé, o microfone e a máquina eram montados. Porém, não fosse a focagem automática estar ligada, quem visse a gravação pensaria ter sido realizada num barco. Um barco em tudo semelhante ao que o menino de 11 anos apanhou para deixar o bairro da Lixeira, em Benguela, para partir em direção à conquista dos seus sonhos em Luanda. Com uma vida difícil e com as irreparáveis marcas da guerra, o cantor, compositor, e produtor, respondeu às perguntas do diretor de comunicação da Ticketline Magazine, José Manuel Diogo, relevando o enorme espanto e gratidão pelo sucesso que conquistou em Portugal. Dedicado e apaixonado pelo seu trabalho, soube tirar partido das parcas oportunidades que teve na vida, é hoje um dos nomes sonantes da música pop angolana, que admite que ainda vai escrever um fado.

José Manuel DiogoVolta a Portugal para uma segunda oportunidade para uma primeira boa impressão, ou para desta vez se consagrar como um dos grandes nomes da música de expressão portuguesa, nos palcos de Portugal?

Matias Damásio– Eu prefiro ir pela segunda oportunidade para um boa impressão, depois daí, partir para esse grande objetivo, pois com o tempo as pessoas vão também conhecer-nos um pouco mais, aquilo que eu posso dizer é que gostava muito de ficar, tenho esse desejo, essa vontade, e tenho estado a trabalhar muito para que isso aconteça. Desde já agradeço os braços abertos, que vou tendo neste CD que lançámos há pouco tempo, portanto é uma grande oportunidade, no fundo para mais uma vez mostrarmos a minha música com toda a alma.

JMD- São 12 anos de carreira, o que é que ainda sobra do menino de Benguela no Matias Damásio Super Star?

MD- Sobra muita coisa, eu ainda vivo, e vivencio muitas coisas do meu passado. A consistência do meu trabalho têm muito a ver com toda a luta que tive no meu percurso. Hoje continuo com o motor ligado a mil, ou seja com as poucas oportunidades que tive na vida, aprendi a trabalhar 24 /24, porque sempre que tenho uma oportunidade, trabalho muito, dedico-me. Acho que a dedicação acima de tudo, o respeito à oportunidade, que é uma coisa que eu sempre tive desde criança. Quando se tem uma oportunidade deve-se aproveitar com todas as formas, com todo o trabalho, com toda a dedicação.

JMD- A sua vida não foi fácil. É uma vida num sítio complicado, com uma situação muito instável, a guerra deixou muitas marcas em si?

MD- Sim foi dificílima… eu era miúdo quando vi amigos meus morrerem, tinha 10 ou 11 anos, amigos que brincavam comigo na rua e depois no dia seguinte já lá não estão. Portanto são coisas que marcam sempre, principalmente na infância. Ninguém está preparado para lidar com a guerra. Tios, amigos, primos, vizinhos, morrerem de um dia para o outro, e de repente serem enterrados em condições que eram muito difíceis, tenho lembranças, vai ficar marcado na minha vida para sempre. Não há como esquecer todo o percurso.

JMD- O Matias é um songwriter, é um escritor de canções, é um cantautor, é um poeta, que canta uma realidade que viveu, a sua primeira fase, com as músicas como “Angola”, “Luanda”, retratam uma realidade social. Como é que o seu modo de viver, de aprender a sociedade, retrata isso? Aquilo que fez em Angola, também gostava de fazer em Portugal, conhecendo melhor esta realidade social portuguesa?

MD- Acho que definiu bem, rapidamente definiu bem quem sou, eu sou as canções não é? A minha música começa da viola, num momento muito íntimo, olhando para a sociedade e fazendo uma fotografia sobre aquilo que vivi, que vivo e sinto com a alma. E é esse o meu objetivo claro, neste momento tenho estado cá em Portugal, é com as canções que eu pretendo levar a minha carreira para vida inteira, eu sou basicamente as letras, e aqui há coisas muito interessantes por acaso. Nós naturalmente temos coisas muito semelhantes, algumas muito diferentes, mas consegue-se sentir no fundo uma relação e uma simbiose quase que profunda e eterna entre nós, somos povos muito ligados, Angola tem muito de Portugal, e Portugal também trouxe muito de Angola.

JMD- Depois de uns anos mais turbulentos, nós vivemos mais juntos uns dos outros, isso é uma oportunidade para quem gosta de cantar Portugal, e a lusofonia sobretudo?

MD- É uma grande oportunidade para aprender e tenho estado a observar muito, sou muito observador. Posso dizer que em breve vamos ter coisas muito relacionadas, com os modos… que é no fundo a característica das minhas canções. Vai acontecer.

JMD- Ainda vamos ter o Matias a escrever um fado?

MD- Provavelmente (risos), eu adoro fado, eu vou a Alfama várias vezes, vou às casas de fado. Há fadistas que não são muito conhecidas às vezes, mas que cantam o fado, e sente-se a pureza e a essência das palavras, o fado, as palavras e o vilão, que têm muita relação também com a minha música, gosto muito.

JMD- Não começou por ser cantor, ou sempre foi cantor, mas tem uma formação académica, alguma vez teve alguma dúvida, alguma confusão, ou esteve sempre à vontade para escolher o caminho da música?

MD- Como sabe para os nossos pais a primeira coisa é a escola … vais ser engenheiro, vais ser doutor, vais ser médico, portanto isso é ponto assente. Depois a música entra na minha vida de uma forma dura mas muito especial também, e a forma como ela entra é muito profunda, no bairro onde eu morava, na Lixeira, não tinha televisão nem rádio. Durante a minha infância toda, nós éramos pobres, não tínhamos. Mas à volta do meu bairro havia um monte de casas que vendiam Capuca, Quimbombo, que eram as bebidas fermentadas nos alambiques, e tinham música 24/24, ou seja, eu nasci, cresci a ouvir música, é uma coisa que de manhã, à tarde e à noite: Kassav, Eduardo Paim, Bonga, era música a todo o momento na altura. Eu já aos 12 anos sabia que era aquilo, quando fui para Luanda escrevia canções sobre a paz, sobre o amor, canções que no fundo estavam a acontecer comigo, saudade. Então quando aprendi a tocar viola, eu disse bom, é isso que eu quero fazer a vida toda, nunca tive dúvidas. Fiz ciências da educação, fui dar aulas, fiz de tudo um bocado, na minha infância engraxei sapatos, escamei peixe, fiz de tudo um pouco aquilo que se fazia em Luanda, e tudo a cantar, eu cantava para os meus alunos, cantava quando fazia outros trabalhos. A música sempre esteve presente na minha vida.

JMD- Agora já me disse quais são as suas fontes de inspiração, mas no meio disso tudo ainda há a Arca Velha. Como é estar em cada um dos lados? Qual é o objetivo da Arca Velha?

MD- Costumo dizer que durante esses anos todos, tive oportunidades, poucas mas tive, tive também muita gente que me apoiou, que me ajudou, porque falou comigo, porque me encaminhou, e eu sinto que tenho necessidade de retribuir isso em Angola, quando existem muitos talentos. Sei que provavelmente os miúdos que nascem no bairro da Lixeira têm muito poucas possibilidades de chegar ao mercado, e a Arca Velha no fundo é uma oportunidade no sentido de tentar trabalhar novos talentos, trabalhar com artistas de várias partes de Angola, aqueles que tenham talento, aquele que podemos apoiar. É um sonho no fundo de retribuição, a Arca Velha é uma empresa, e independentemente de ter objetivos económicos, tem uma componente social. Nós temos o festival de trova, que é nosso, que é um festival que reúne músicos que tocam violão de Cabinda ao Cunene, nós reunimos em Luanda cerca de 30 músicos para tocarem e mostrarem o seu talento. Costuma ser em Novembro, o objetivo é poder dar um palco, uma luz às pessoas que estão às vezes lá no fundo.

JMD- Está a retribuir.

MD- É um sonho de retribuição, temos outros artistas, temos a editora, no fundo é isso, o objetivo é uma empresa muito pessoal, uma coisa que tem muito a ver com o Matias.

JMD- Porquê que se chama Arca Velha?

MD- Olha É muito engraçado, porque nós estávamos à procura do nome da empresa e surgiram muitos e muitos, muitos nomes. E então, eu disse olha, eu quero juntar à minha volta vários talentos, e lembrámo-nos da arca de Noé, e vieram várias ideias, mas o adjetivo de velha, não é velha, é tipo uma coisa de consistência, sobretudo uma arca para todos, uma arca que já antes de eu ser alguém imaginava. Esta arca é antiga no sonho, eu sempre quis estender a minha mão, ajudar os outros artistas, portanto é uma arca.

JMD- Têm que escrever essa canção, já escreveu essa canção?

MD- Não, ainda não, é um desafio, mas na verdade a arca, é uma arca que já existe aí no coração e na alma e está aqui hoje com estrutura para poder apoiar outros artistas.

JMD- Esperava o sucesso que está a ter em Portugal?

MD- Não, não, era impensável. Claro, nós quando viemos para aqui fazer o CD, havia todo um sonho, queríamos entrar para o mercado, fazê-lo com a Sony Music, foi um convite que eu fiquei muito contente, mas ideia era… vamos a Portugal, vamos lançar um disco, as pessoas vão gostar do disco que é muito bom, mas o que aconteceu aqui foi uma coisa impensável e extraordinária. Nós não imaginávamos que fosse esta loucura. Nós lançámos o disco há cinco meses, temos 23 ou 24 milhões com os “Loucos“, temos quase 10 milhões com o “I wanna be your hero”, as canções cada vez mais a serem escutadas, eu ando pelo elevador e encontro a vizinha a cantar o “Loucos”, estou na rua de repente o miúdo vem ter comigo no restaurante, isto tudo aconteceu, é muito bom. Nós imaginávamos sim, que fosse ser um sucesso, que fosse ser uma coisa boa mas superou as nossas expectativas. Estamos muito felizes.

JMD- Para estes concertos que vem fazer agora a Portugal vai cantar o quê? E quem vem cantar consigo?

MD- Quem vem cantar ainda é surpresa… vamos ter aí muitas coisas boas, mas é surpresa. Vou cantar sobretudo canções antigas também dos álbuns passados que não foram editadas cá, aquelas que nós sentimos que de facto devem ser mostradas, para as pessoas poderem também conhecer o Matias na sua essência. Como a música “Angola” que têm a ver com a minha pátria, a minha Angola amada.

JMD- É um hino, aquela música é um hino.

MD- É, a música “Angola” é o nosso segundo hino, é uma música que emociona todos. É no fundo a minha grande retribuição ao meu país que me deu tudo. Esse país que a cada ano que passa vai superando, as pessoas que têm essa forma e essa força de viver. Mas vou cantar desde o “Porquê” músicas antigas, e naturalmente as músicas do álbum “Por Amor” com novos arranjos. Vai ser um espetáculo onde eu vou dar tudo, a minha alma, tudo! Quero doar-me às pessoas.

Matias Damásio à Ticketline Magazine