Gal Costa completa 50 anos de música. Tropical, Plural, Índia e Profana, Gal volta de novo a terras lusas com a digressão Espelho D’Água, uma releitura da longa estrada da sua carreira, somada de novos acordes.

Texto de José Manuel Diogo com Álvaro Filho

Quais foram os critérios para decidir o repertório do show?
Para este show eu escolhi músicas emblemáticas de várias fases da minha carreira, para que os jovens tenham essa oportunidade de me ouvir e ver ao vivo, entre elas posso salientar “Vaca Profana” e “Tigresa”.

Há alguma adaptação ao repertório do show em relação à tournée brasileira, pensada para contemplar o público português?
Não, eu acho que não, mas o público português vai gostar do repertório, porque vai assistir ao meu espetáculo e com certeza que conhece a minha história. Eu vou cantar, por exemplo, “um dia de domingo”, porque foi um grande sucesso em Portugal. Pode ser que eu faça alguma adaptação, mas não é provável.

Uma das canções incontornáveis em Portugal é “Gabriela”, tema da novela que marcou a geração pós 25 de Abril. É uma canção também especial para você? Porquê?

É uma canção muito especial para mim sem dúvida, primeiro porque é uma musica do Dorival Caymmi e segundo porque foi a primeira canção que eu gravei para uma novela. É uma canção simples, bonita, como tudo que o Caymmi fez na vida. Eu acho que me identifico muito com a Gabriela tem uma identificação pessoal também. Conta-se que o produtor que a lançou sugeriu o nome artístico
de “Gal” pois Maria da Graça era mais apropriado a uma “cantora de fado”.

Você gosta de fado? Tem acompanhado a nova geração de fadistas?
Eu gosto muito de fado, a minha referência do fado é a Amália Rodrigues claro, mas também conheço algumas
fadistas mais novas. É incrível como eu também tenho raízes portuguesas, o meu avô era português e tive inclusive algumas tias casadas com portugueses. Conhecendo a cultura portuguesa em si, eu realmente não achava que o nome Maria da Graça fosse ao encontro do meu estilo musical. Nessa altura o meu produtor Guilherme Araújo que claro, tinha uma visão mais comercial, me propôs esse nome e eu aceitei. O show é composto de canções que a acompanharam nesses anos de estrada, mas há também outras recentes.

 É melhor cantar uma canção antiga ou uma nova? Porquê?
É sempre bom cantar músicas novas e antigas, eu sinto às vezes que quando canto uma canção antiga, dependendo do momento, ela torna-se totalmente nova, mas isso depende do momento, do sentimento e do ambiente. O último trabalho foi “Estratosférica” (2015), um título que sugere uma certa elevação. É assim que está se sentindo, mais elevada, tranquila? Porquê? Eu sinto-me tranquila, especialmente a nível espiritual, mas estratosférica significa muito mais que isso, significa quase que o universo. Foi o nome de uma letra do Pupillo [baterista] e da Céu [cantora] que me deu a ideia, pelo impacto do nome, eu diria. Estratosférica na verdade é o show que comemora os meus 50 anos de carreira.

A Gal surgiu como um furacão na música brasileira, não só pela voz vibrante, mas também pela presença de palco esfuziante. Imagino que a maturidade trouxe uma mudança natural de perfil dos shows. Quais foram essas mudanças?
Já há muitos anos que eu dançava, mesmo não sendo profissional eu sempre gostei de dançar e de me movimentar nos meus concertos, no entanto, desde sempre que eu decidi focar a minha performance na voz, porque o mais importante no meu trabalho é a minha voz. Eu tenho uma comunicação com a plateia muito melhor atualmente, mais solta, mas sempre mais concentrada na minha voz. A minha voz é tudo para mim. “Espelho D’Água” é também o nome da música assinada por Marcelo Camelo. Há outra faixa com letra de Mallu Magalhães no disco. O público pode esperar uma participação especial de Marcelo e Mallu, que moram em Lisboa? Não sei, acho que não, mas vou procurá-los, pelo menos seria bom que eles viessem e assistissem ao show.
Nos últimos anos, houve uma(nova) migração passiva de brasileiros para viverem em Portugal, muitos deles fugindoda crise financeira e política no Brasil. A inconfundível voz de Gal pode ajudar a aliviar a saudade
“de casa”?Eu acho que sim, mas os brasileiros que vivem em Portugal gostam de lá morar, não por imposição, até porque o povo português é muito gentil. No entanto espero que a minha musique ajude a diminuir a saudade.

Cinquenta anos não são cinco.Como se sente em saber que o seu nome está definitivamente marcado na música brasileira e que por cinco décadas influenciou várias gerações de cantores?
Eu sinto-me realizada, muito feliz e ainda com muitos projetos para fazer, eu tenho algumas ideias e de momento
estou pensando na estética musical do meu próximo disco que devo começar a gravar no final deste ano.
Como lida com a idade? Com o envelhecimento? Há essa tal doçura? Ou é mesmo um saco? Envelhecer tem vantagens, primeiro, quanto mais se envelhece mais se vive e isso é bom. Eu agora tenho mais maturidade,
mais tranquilidade e também sou uma pessoa mais segura de mim mesma, por isso, sim, acho que lido bem.

Foi difícil a tarefa de condensar 50 anos de carreira num só show? Além da quantidade de músicas, o que foi deu mais trabalho?
Nada deu trabalho, para mim é sempre prazeroso trabalhar com música. O Espelho D’Água é um show onde fui convidada para fazer uma estreia de um teatro novo em São Paulo e então, convidei o Guilherme Monteiro que é
um guitarrista que eu gosto muito, para tocar comigo. Escolhi um repertório bem emblemático, que inclui temas que eu cantei no passado, e que muitos jovens, que hoje seguem o meu trabalho, mas que nunca tiveram oportunidade de me ouvir ou ver cantar no palco, vão agora ter, e para isso ser possível, escolhi canções de varias épocas, como a época tropicalista por exemplo, vai serum show bem bonito, eu acho.