Há uma musica no disco a solo de Ana Bacalhau que tem por nome um apelido: A Bacalhau. Reza assim. Já vos disse que sou Ana e que meu nome é aqui da terra, porque lá na Noruega, neva mais do que na serra. Se já disse e então repito, isto não é nome artístico e fica até bonito. E de nome de registo passou a nome de guerra. Ana é seu único nome, mas é mesmo nome próprio, e como é próprio de si não podia ser tão sóbrio. Um bacalhau no fim tem um peixe por homónimo, (que) fica tão bem assim (até) parece um pseudónimo.

Ana Bacalhau, por Ana Bacalhau, sobe ao palco no dia 26 de janeiro no Teatro Tivolli BBVA para a apresentar o seu novo projeto “Nome Próprio”. Fomos conversar com  Ana, sobre o nome de guerra que é um apelido tão português.  A solo e “com todos” aqui está o primeiro trabalho de marca própria da vocalista dos Deolinda.

Aos 15 anos começou a cantar e a tocar guitarra. Aos 23 integrou a sua primeira banda. Como descobriu que a música era a sua vocação?

Assim que comecei a cantar, percebi que nada me dava tanto prazer e me trazia tanta satisfação. Soube desde esse momento que o que queria era fazer daquele canto amador um canto profissional e passar a minha vida a actuar por esse mundo fora.

Só em 2009 é que se dedicou exclusivamente à música. Porquê a demora?

Não é fácil poder retirar dividendos suficientes da música para que possa ser a nossa actividade profissional exclusiva. Só em 2009 é que consegui viver apenas do que ganho a cantar.

É possível viver da música em Portugal?

Sim, é, mas tem de se criar um público fiel e para isso precisamos sempre de investir tempo, esforço e dinheiro para que o nosso trabalho possa chegar às pessoas. Não é fácil e por vezes parece mesmo impossível, mas com alguma teimosia e sorte à mistura, consegue-se.

Como surgiu o projeto “Nome Próprio”?

Surgiu de uma vontade de perceber quem sou enquanto artista quando me apresento a solo. Sempre estive integrada em bandas e tinha curiosidade em saber que tipo de música faria se só me representasse a mim em palco. Este disco é o resultado dessa busca.

Quais são as suas maiores influências musicais?

De um lado, a raíz portuguesa, claro. Por outro lado, o cancioneiro anglo-saxónico é-me muito próximo e querido e qualquer trabalho que pretendesse mostrar-me teria de o referir. Tentei ligar estes dois mundos aparentemente tão distantes neste disco. As balizas que dei aos autores foram o trabalho de Fausto com os ritmos e danças portugueses e de António Variações, que trabalhava essa matriz portuguesa e lhe acrescentava pozinhos de uma pop anglo-saxónica, fazendo-o de forma harmoniosa e natural.

Em “Nome Próprio” conseguimos perceber a personalidade e visão musical da Ana?

Espero que sim, foi feito com esse intuito. Queria acrescentar ao que já fiz tanto com Lupanar como com Deolinda algo de muito pessoal e intimo e penso que este disco me ajuda a revelar enquanto pessoa e enquanto músico.

Qual é a música deste álbum que a faz vibrar?

Todas. É mesmo difícil escolher uma preferida. Todas são importantes para mim, todas me contam de alguma forma, senão, não estariam presentes no disco.

Quais são as principais diferenças entre estar numa banda e ter uma carreira a solo?

A maior diferença é o facto de sermos a fonte de todas as decisões, criativas ou executivas. Por um lado, controlamos todo o processo e o resultado é um espelho daquilo que somos ou queremos ser naquele momento, mas é também gerador de algumas inseguranças e medos, uma vez que a responsabilidade dos nossos actos recai na íntegra sobre nós.

Em 2013 lançou o projeto “15”. Foi uma forma de reviver a adolescência?

Foi uma forma de revisitar essa altura tão importante na minha vida, relembrar algumas coisas que vivi e sentia e poder assim começar a construir um futuro que integrasse essas experiências e, ao mesmo tempo, ajudasse a criar novas experiências.

Quais são as grandes diferenças entre a Ana do projeto “15” e a que aparece em “Nome Próprio”?

No “15”, experimentei diferentes registos e possibilidades e em “Nome Próprio” escolhi os que me assentavam melhor, aqueles que faziam mais sentido existir no meu universo artístico e pessoal.

Dia 26 de Janeiro atua no Teatro Tivolli BBVA. É um sítio especial?

Sim, fui sempre muito feliz no Tivoli. Já lá toquei diversas vezes, com Deolinda e como convidada noutros concertos e foi sempre tão bom. É uma casa especial, com história e um teatro lindíssimo.

O que podemos esperar deste espetáculo?

A Ana que todos conhecem dos palcos estará lá, com os seus “bichos-carapinteiros”, sempre de um lado para o outro, sem parar. Mas estará lá também uma Ana mais introspectiva, que canta de olhos fechados, enrolada sobre si. E acompanhada por uma banda de luxo, com músicos incríveis. Além de tudo isto, existe um cenário que pretende apresentar o conceito deste disco, mostrar as minhas diferentes facetas.

Quais são os projetos para o futuro?

Cantar muito onde me queiram ouvir. Ser mãe da Luz. Amar e ser amada. Se conseguir fazer isto tudo, será um futuro sorridente. Espero que sim.

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