A FELICIDADE FOI PROMETIDA À MEDITAÇÃO. O QUE TINHA DE SER UMA INÚTIL PAISAGEM FOI AO RETRATO EM PRETO E BRANCO D’O GRANDE AMOR QUE DON’T EVER GO AWAY, SÃO CANÇÕES DE JOBIM QUE EMBALAM A ALMA DE UMA VIAGEM. “CARMINHO CANTA TOM JOBIM” É UM DISCO ÚNICO, TALVEZ COMPARÁVEL ÀQUELE QUE AMÁLIA RODRIGUES GRAVOU NA BROADWAY EM 1965. A CANTORA VISITOU A OBRA DO COMPOSITOR BRASILEIRO A CONVITE DA FAMÍLIA E O RESULTADO É IMENSO. TÃO GRANDE, QUE GANHA ASAS DE TOURNÉE INTERNACIONAL.

O bilhete de partida tira-se dia 6 de Novembro na emblemática Konzerthaus, em Viena, na Áustria, e a chegada acontece, quase um mês depois, a Portugal, em dois concertos “únicos” com convidados especiais, do lado de lá do oceano, primeiro a 30 de novembro no MEO Arena e depois a 2 de dezembro no Multiusos de Guimarães.

Como é que nos sentimos quando é a própria família de Tom Jobim nos pede para transformar a obra dele … 

No inicio achei que fosse algum entusiasmo daquele momento, que foi ótimo e gratificante, mas que é ali, num encontro de amigos, sem interesses e expetativas. E eles são muito entusiasmados. Nós conhecemos os brasileiros e sabemos que eles gostam de uma festa, de um desafio e de um sonho; e isso é maravilhoso, mas nem sempre quer dizer que isso se vá concretizar.Na minha cabeça, eu fiquei entusiasmada, mas eu preciso de dar passos seguros, como sempre dou nas minhas decisões mais importantes. E isso, de facto, seria uma decisão importante que teria de ser melhor pensada por mim. Teria que ser mais do que fruto do entusiasmo. Pensei bastante e depois conheci o Paulinho Jobim que me entregou o repertório do Tom Jobim para eu escolher. Foi esse o momento em que realizei que não só eles estavam a falar a sério, como eu estava efetivamente consciente que aquilo iria acontecer e que eu teria de trabalhar de uma forma muito concentrada e direcionada para um resultado.

Do repertório de onde saíram estas canções, foi possível ouvi-las todas até chegar à escolha final?

O repertório todo tinha quase 400 canções. Não foi possível ouvi-las todas porque algumas coisas são bandas sonoras para filmes ou publicidades. Outras são de facto universais, que nós sabemos que queremos gravar, ou que não queremos cantar, por alguma razão. O critério foi feito segundo a minha sensibilidade no sentido de puder interpretar aquilo de uma forma genuína e honesta, em que eu pudesse dar aquela que também é a minha linguagem e a minha identidade. Como se aqueles temas fossem também um bocadinho meus. Para que eu pudesse incluir também um bocadinho que fosse da minha energia e da minha verdade no repertório que já é conhecido por toda a gente, que já foi gravado por tantas pessoas pelo mundo inteiro. Era um desafio. E decidir fazê-lo foi fruto de muito pensamento, mas a partir desse momento de decisão e de ter recebido o repertório, comecei a trabalhar nele e a ouvi-lo bastante, a tentar criar alguns dos critérios de decisão desse repertório. E para isso ajudou-me bastante o Vinícius França, o Paulinho Jobim e o Chico Buarque que me foram dando alguns conselhos. Decidi que havia um critério importante, que seria, eu escolheria os temas que – chegavam até a mim de uma forma muito natural – os temas que estavam escritos num português que me fosse mais familiar, num sotaque e num tempo verbal e pessoal em que o meu sotaque se adaptasse mais naturalmente.E isso foi decisivo para escolher algumas canções e excluir outras.

O ritmo, as letras, os autores? Tudo junto?

Não me me quis resumir a um poeta só, a uma parceria. Podia ficar com três ou quatro coisas dele com Vinícios de Moraes – seria possível, tantos temas maravilhosos que eles fizeram juntos – mas escolhi fazer uma seleção mais heterogénea dessa lírica. Portanto, Vinícios de Moraes, Tom Jobim, Chico Buarque, Dolores Duran… poetas que fizeram lírica e poesia para as músicas de Tom Jobim ou vice-versa. Esses critérios foram também de época, coisas mais antigas, que ele compôs nos primeiros tempos e outras mais recentes. E por fim uma [canção] de Dolores Duran que foi traduzida para inglês na altura em que Sinatra gravou Jobim. E já que havia um critério temporal, outro de parceria e ainda vários outros critérios implícitos, [juntei uma dessas canções traduzidas] por ser a minha canção favorita de Tom Jobim – “Por causa de você” – e eu achar que a forma como estava escrita, não se encaixaria tanto na minha maneira de dizer o meu português e decidi cantá-la em inglês. “Don’t Ever Go Away”, é como se chama o tema da Dolores Duran.

Mas não foi apenas o repertório de Tom Jobim? Há mais influências?

Senti também que fazia sentido convidar algumas pessoas que me “deram” Tom Jobim. Fui tentando construir na minha cabeça, uma personagem que nunca conheci pessoalmente, infelizmente, mas de quem tenho uma ideia e sobre ele, uma forma de nele. Somo isso às canções e às coisas que sinto sobre ele, e também às histórias que me foram contando amigos. O Chico Buarque… mesmo sem saber conheci muito de Jobim através dos discos do Chico, temas que tinham sido feitos pelo Tom, como “Sabiá”, “Retrato em Branco e Preto”; a Maria Bethânia por ser uma intérprete do outro mundo e por, na minha opinião, se ligar muito ao fado na medida em que tem uma forma de encarar a palavra e a lírica de uma forma muito intensa; e a Marisa Monte por ser uma pessoa muito próxima de mim, que tem também uma origem na raiz do seu país musical, que é o samba. Mas que de uma forma contemporânea, fresca e nova se vai transformando e vai trazendo coisas novas à sua música.

 Sente que está a acrescentar alguma coisa às músicas de Tom Jobim?

Não posso dizer isso, não me compete a mim dizer isso. Eu sinto que sou honesta quando o faço, pensei bem que no que queria fazer e tive uma ajuda fundamental e indispensável. Sem ela talvez não me tivesse atrevido a gravar este disco. Ele é todo gravado pela banda que acompanhou Tom Jobim nos últimos 10 anos da sua vida. A Banda Nova nasceu em 1984 – ano em que eu nasci, uma coincidência engraçada – é composta pelo seu filho – Paulo Jobim, pelo Jaques Morelenbaum (toca violoncelo e fez muitos dos arranjos de Tom Jobim), pelo Paulinho Braga (Baterista) e Daniel Jobim (neto de Jobim), que apesar de não ter feito parte dessa banda ao vivo na época, estava em todos os ensaios, acompanhou… só não fez parte do palco de Tom Jobim, mas fez a vida do avô.

— E eles davam palpites? Faz mais assim, desta maneira… faz de outra …

O disco foi produzido pelo Paulinho e por mim. Ele, obviamente na parte musical, com os arranjos, para que fossemos fiéis às composições de Tom Jobim e à própria energia que depositou nas suas composições. De repente eles davam-me a liberdade de poder trazer as ideias mais estapafúrdias e a sensibilidade que me levava a sugerir a mudança de alguns arranjos de algumas canções. Algo que pudesse também trazer algo meu e algo mais parecido com a minha linguagem a um disco de música popular brasileira.

 No final das contas Carminho é uma portuguesa a gravar um disco de música popular brasileira?

Exatamente. Mas para que isso não se tornasse algo de impessoal, para que eu não fosse envolvida por completo por alguma canção, descaracterizando-me a mim, contei com a imensa generosidade deles que me deixaram ser quem eu sou, e interpretar as canções de uma forma natural e genuína. Mas sempre com aquela segurança de que eles estariam lá para me guiar e aconselhar. Para se calhar até dizer: — “Carminho vai em frente, não tenhas pudor, sugere e vamos fazer coisas novas porque o Tom era também muito livre. Não vamos ficar presos ao que já foi feito. Sugere e faz. Vamos juntos fazer algo novo”. Eu não sei se algo foi feito de novo, mas estou muito feliz com este disco e estou muito orgulhosa de os ter comigo.