No ano em que Portugal assinala 150 anos da abolição da pena de morte, Virgílio Castelo dá vida à peça “O último dia de um condenado”, uma crítica à pena de morte. A ação situa-se na prisão, onde o condenado espera a sua hora para ser morto em plena praça pública. Nesse mesmo momento, questiona se existe justiça em tirar a vida de um ser humano, mesmo que este tenha cometido um crime de sangue. Fomos conversar com o ator que interpreta esta obra, adaptada do romance de Vitor Hugo, publicada  pela primeira vez em 1862, numa altura em que este debate tinha ainda poucos ouvintes. O próprio autor felicita Portugal por ser o primeiro país na Europa a abolir esta pesada e injusta pena, numa vitória que tem ecoado ao longo de várias gerações.

Sente uma responsabilidade acrescida por interpretar um papel que teve consequências políticas tão profundas?

O teatro tem sempre esta função de refletir sobre a existência. Um tema como a pena de morte é um tema que embora aparentemente não esteja na ordem do dia em alguns países do ponto de vista legal, continua pelo menos do ponto de vista moral. Ou seja, hoje em dia há um certo tipo de crimes que se cometem, sobretudo através das redes sociais, em que se ouve imediatamente dizer: “esse tipo merecia ser morto imediatamente.” A ideia de que se pode condenar alguém à morte porque cometeu um certo tipo de crime embora do posto de vista legal esteja ultrapassada, no ponto de vista moral e ético ainda está muito por dentro da cabeça das pessoas. Um tema como este é intemporal.

Foi isso que o atraiu nesta peça?

O tema já tinha uma ressonância particular para mim porque eu tinha lido, há muitos anos, que Portugal tinha sido o primeiro país a abolir oficialmente a pena de morte. Também tinha lido que o Victor Hugo tinha escrito um carta ao Diário de Notícias e havia uma reportagem nesse jornal sobre o último carrasco, ou seja, o último homem a ter morto alguém a mando da lei. Na altura tudo isto me pareceu interessante mas nunca imaginei um dia vir a trabalhar com este tema, nem imaginei que 20 ou 30 anos depois viria este convite do Paulo Sousa Costa. Fiquei muito surpreendido quando ele me falou no assunto e achei que o facto de já me ter interessado pelo tema há tanto tempo atrás queria dizer alguma coisa.

Como tem sido trabalhar com Paulo Sousa Costa?

Tem sido muito bom porque eu já tinha tido alguns convites do Paulo para participar na Yellow Star mas nunca tinha sito possível por uma questão de agendas, desta vez foi possível e descobri uma coisa que eu já suspeitava. O Paulo tem a mesma opinião do que eu no que diz respeito ao processo de trabalho. Nós partimos do princípio que por mais complexo que o tema seja deve ser dado aos espetadores da maneira mais simples e não básica. Simples não quer dizer naturalmente básico. Nós trabalhamos sempre no sentido de criar espetáculos que cheguem ao coração do público. Foi muito fácil entendermo-nos.

Acha que as artes podem mudar o panorama político de um país ou do mundo?

Esse deveria ser sempre o papel da arte mas no sentido político mais nobre do tema ou seja, eu acho que a arte deve refletir sobre a vida e tentar encontrar propostas de solução. Não digo soluções absolutas porque isso entra no domínio de uma política totalitária, quando se tem muitas certezas sobre as coisas. Acho que a arte ajuda o ser humano a refletir e até de um modo instintivo e não racional, ou seja, a arte desperta nos seres humanos algo que não passa por um mero raciocínio lógico, desperta emoções e portanto eu acho que é sempre uma maneira de refletir sobre os problemas da vida que sempre existiu. O teatro particularmente dentro da arte é uma arte catártica no sentido em que os espetadores quando assistem a uma peça sentem determinados sentimentos que provocam determinadas emoções que por sua vez lhes provocam determinadas reflecções.

Depois do impacto que esta peça teve na sua vida, ainda guarda alguma mensagem para o futuro?

A vida é muito mais misteriosa do que aquilo que parece. Na arte há um ditado que diz que não se deve desejar com muita força as coisas na adolescência porque depois acontecem antes da idade adulta e de uma maneira que nem sempre é aquela que nós prevíamos. Acho que a força do querer é muito forte mesmo quando não temos noção do que é esse querer. Por vezes esses quereres manifestam-se de maneiras que não passam apenas por uma vontade de obter coisas mas sim por caminhos mais misteriosos. Quando há qualquer coisa que nos comove ou um assunto que nos interessa e não sabemos explicar porquê, provavelmente haverá sempre razões exotéricas e que nos vão ser explicadas mais tarde ou mais cedo.

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