Se pensa que o Carnaval vem do Brasil, está bem enganado. Já no Século XIII, durante o reinado de D. Afonso III, se festejava o “entrudo”. Se nunca se questionou sobre a origem desta palavra, fica já esclarecido. É a celebração da entrada da “Quaresma”. Antigamente a tradição era mandar coisa pela janela. Isso, ouviu bem.

Texto: Pedro Paulos

Hoje em dia apenas nos desviamos daqueles garotos que lançam aqueles balões de água, antigamente era pior. Imaginem que acontecia hoje em dia: todos os seus vizinhos a mandar água, laranjas, ovos e, resumidamente, tudo o que tivessem à mão pela janela. Provavelmente naquela altura o Carnaval também era conhecido como o “Festival das Cabeças Partidas”.

Até numa destas celebrações portuguesas – O Carnaval de Torres, que, de resto, é uma das mais famosas dos país – se começou por fazer a laranjada. E, não, não era um regabofe de ver quem fazia mais sumo de laranja, era puro tiro-ao-alvo com laranjas a espalmarem-se em rostos alheios. A certa altura houve um toreense, herói anónimo, que decidiu: vamos fazer isto com flores e ninguém se magoa. Desde então que a palavra “laranjada” em Torres Vedras já não faz ninguém levar às mãos à cara.

O Carnaval tem origem na celebração do regresso às rotinas religiosas. Resumidamente, é o síndrome do último dia. Como um estudante que não fez um trabalho para o dia seguinte e passa o último dia a fazer. Todo um festejar, como se toda a festa fosse acabar no dia seguinte.

Só com a República, no ínicio do Século XX, é que se separou do seu cariz religioso. Há quem diga que é porque as pessoas de outras religiões queriam acertar com laranjas na cara dos amigos mas, infelizmente, já chegaram tarde.

Algures no tempo, por influência dos gregos, surgiu a ideia da quebra da regras do mundo, através do disfarce. Era a oportunidade de ser outra pessoa, experimentar outra pele, e, toca a admitir, ver se sempre conseguimos usar uns sapatos de salto alto.

Torres Vedras deu-nos o Joaquim Agostinho, o Pastel de Feijão e a Matrafona. Tudo começou com os homens de campo que, como não tinham maneira de comprar disfarces, iam ao armário espreitar a roupa velha da esposa para engendrar um disfarce tosco, hoje em dia há homens que passam dias inteiro às compras para ver se ganham o prémio Miss Matrafona. Este prémio se não existe, devia existir.

Que estes homens vestidos de mulher tornaram-se ícones no Carnaval de Torres Vedras já todos sabemos, e que agora até têm um hino chamado “Samba da Matrafona”, saberá disso? Os brasileiros podem não ter inventado o Carnaval mas inventaram outras coisas boas, como o Samba. No Brasil é tão grande que existe até o “Sambódromo”. Quem sabe um dia não existe um Matrafonódromo em Torres Vedras. A música foi composta por outra ilustre toreense, Susana Félix, que convidou dois nomes conceituados da música brasileira para dar ainda mais força a esta tradição: Zeca Pagodinho, cantor de samba, e Emicida, reconhecido rapper. Não foram esses os únicos reforços que figuram esta música que promete fazer todos os homens de Portugal a vestirem-se de mulher neste carnaval, também existem os bombos dos “Zés Pereira” à mistura.

Os “Zés Pereira” também são conhecidos como “cabeçudos”. Ninguém sabe bem de onde vem a origem deste nome. Talvez tenha existido, algures na história, um Zé Pereira com uma cabeça de volume superior à média, que foi ridicularizado naquele que viria a tornar-se um dos maiores actos colectivos de bullying nacionais. Esperemos que não tenha sido, alguém devia só querer disfarçar-se de outra pessoa e não conseguia fazer cabeças tão pequenas. Eles também vão andar por lá este ano, no Carnaval de Torres Vedras, a meter matrafonas – vá, e pessoas que se disfarçam de outras coisas – a dançar.

Para além disso, ainda há os carros alegóricos, com o seu cariz de crítica política e social. Há até quem diga que os críticos políticos todos deste país estão à espera deste dia para saberem do que falar nos próximos tempos. Até porque os únicos poupados são os Reis do Carnaval de Torres, que são sempre 2 homens. Um vestido de homem e outro de matrafona-lider. Dos outros todos, o que mandam em coisas secundárias como no nosso país, esses não escapam.

A festa tem dois horários diferentes, consoante o dia: nos dias pares, 10 e 12 de Fevereiro das 18h às 03h, e nos dias impares, 11 e 13 de Fevereiro, das 11h às 19h. Os palcos são muitos, a festa é longa e não vão faltar homens vestidos de mulher. O tema deste ano é “Mares & Oceanos” portanto tem muito para descobrir. Se for homem, já sabe, vá dando já uma espreitadela no armário para ver como lhe fica aquele vestido curtinho.

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