SIMONE QUE QUASE SE CHAMOU ASTRID, É DONA DO SEU NARIZ E NUNCA TEVE COMPLEXOS SOCIAIS. FEZ SEMPRE O QUE DEVIA FAZER SEM CONSTRANGIMENTOS. DIVORCIOU-SE AOS 19 ANOS, APÓS UM CASAMENTO INFELIZ DE 2 MESES. TEVE DOIS FILHOS SEM SER CASADA PARA SUPERAR A TRAGÉDIA ENTROU PARA UMA ESCOLA DE FORMAÇÃO. O PRIMEIRO FESTIVAL DA CANÇÃO FOI A SUA ESTREIA COMO ARTISTA, CANTOU O BURRINHO E OS SANTOS POPULARES, DE MAX, E O ADEUS. POUCO TEMPO DEPOIS APARECE A TELEVISÃO E A PARTIR DAÍ FOI SEMPRE A CRESCER. ADMITE QUE A VIDA DE ARTISTA, BAILARINA, GUITARRISTA OU FADISTA, ERA A MÁ VIDA. “MAS EU TIVE UM PAI E UMA MÃE ESPANTOSOS, QUE FORAM ACEITANDO ESSAS COISAS TODAS.”

O MUSICAL
A este musical, que lhe foi proposto pelo autor, Tiago Torres da Silva e por Paulo Dias da UAU, nunca lhe passou pela cabeça recusá-lo, “uma biografia com a pessoa viva: Aleluia, corações ao alto!”. Simone fala da peça torrencialmente “É uma história. Sou a Simone. Canto e falo. Naturalmente vou dizer mais duas ou três coisas além do que está escrito… Não se pode fumar, e eu entro a dizer: o meu reino por um cigarro. Há três Simones. Eu agora, a dos 25 anos e a dos 50 anos. A Sissi e a Maria João Abreu. A única coisa é que vão estar tramadas… têm de cantar as minhas cantigas. Eu estou cá para ajudar. Estão para ali umas 17 ou 20 cantigas. Logo o primeiro ato acaba com a Desfolhada e não é cantada por mim! Eu qualquer dia não canto a Desfolhada. Ando há 49 anos a cantá-la. A capella, com guitarra, sozinha, com orquestra, sem orquestra, com piano, sem piano”. Mas a Desfolhada não pode faltar, mesmo depois de Simone ter sido a quarta escolha! A primeira foi Madalena Iglésias, que se recusou a cantar a frase «quem faz um filho fá-lo por gosto».
Simone, aceitou pelo motivo contrário, por ter este mesmo verso, “Então eu fiz dois, filhos, e fi-los por gosto e com quem quis.” O musical começa com a música Sol de Inverno. Foi um repertório difícil de escolher pois Simone tem mais de 400 cancões. Para o terminar, escolheu uma música que compôs quando a mãe morreu, Apenas o Meu Povo, tinha então 33 anos. A mãe já não a ouviu cantar depois de perder a voz.

SEM VOZ
Apercebeu-se pela primeira vez que a voz estava a falhar no Funchal. Foram 3 anos “calada”. Quando voltou, teve aulas de voz, e regressou ao palco a cantar Shadow of Your Smile a convi- te de Carlos do Carmo. Volta com uma voz única, a voz “que a vida inventou por mim”. Simone sente a pressão, sente a exigência do público, sente que não pode falhar. Como ela própria diz “Estou sempre em palco”, sempre a ter que mostrar o melhor de si.

DRAMAS E CANTIGAS
Simone tem um carisma tão forte que às vezes fica dele prisioneiro. Emociona-se com o que viveu, com os momentos de sofrimento marcantes como “A morte de Varela”. Varela Silva foi seu companheiro dentro e fora dos palcos e também um critico feroz do seu trabalho. “Era sempre muito negativo”. Dizia-lhe: “Tu não vais [entrar] porque não consegues cantar 25 cantigas, vê lá se metes isso na tua cabeça. Era assim, muito negativo. Mas fez-me muito bem porque me dava uma serenidade que eu não tinha, uma tranquilidade grande, eu dei-lhe as minhas gargalhadas e meu sentido de humor.” Desde que ficou viúva não encontrou nenhum outro homem à altura das suas exigências, mas isso apenas revela a sua independência e autossuficiência. Simone era a Cantigas e Varela o Dramas, conheceram-se na Queima das Fitas do Porto e estiveram 23 anos juntos numa vida preenchida.
Simone continua a amar a vida hoje como sempre. Agora como nunca. Mesmo consentindo que poderia ter sido menos dura, gosta de estar rodeada de pessoas e claro um bom whisky. Está em paz. Muitos anos depois, às impressionantemente jovens 79 primaveras, Simone de Oliveira faz de si própria no musical a estrear no Teatro Tivoli BBVA, no dia 23 de setembro, chega ao Porto a 10 de novembro e à Figueira da Foz dia 17 novembro. Desassombrada, autêntica como só ela sabe ser.

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