Toquinho vem a Portugal celebrar meio século de carreira com dois concertos que prometem ser memoráveis: a 17 de abril, no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, e a 18 de abril, na Casa da Música, no Porto. A acompanhar este ícone da música popular brasileira estará João Ventura, um pianista, cantor e compositor, que faz uma associação entre a música popular brasileira com a música clássica. Conheça um pouco melhor ambos os artistas.

 

Quem é o Toquinho? Fale-nos um pouco sobre si e sobre este nome.

Toquinho é uma mistura de otimismo, bom humor, alguém que coloca a vida sempre à frente da arte. É um homem simples, cuja solidão não assusta. Aliás, pelo contrário, acrescenta conhecimentos e emoções. O nome Toquinho surgiu porque a minha mãe chamava-me carinhosamente de “meu toquinho de gente” durante a minha infância. O nome permaneceu e fiquei conhecido dessa forma artisticamente.

Como começou a sua carreira musical?

Em 1959 decidi aprender a tocar violão com Paulinho Nogueira, estimulado pela revolucionária batida de João Gilberto, que lançava a canção “Chega de saudade” no seu primeiro LP. Não podia imaginar que a música se constituiria um caminho profissional em minha vida. Comecei na década de 1960, no palco do antigo Teatro Paramount, em espetáculos em que participavam músicos e intérpretes iniciantes, mas que se tornariam sucessos anos mais tarde.

De que forma surgiu o interesse pela criação de cd’s infantis?

Comecei a musicar poemas infantis do livro “Arca de Noé”, de Vinícius de Moraes, em 1980. Estimulado por ele, o meu parceiro mais importante, produzimos dois discos de grande sucesso: “Arca de Noé” e “Arca de Noé 2”. Aí estão gravadas dezenas de canções infantis que crianças de muitas gerações aprenderam a cantar.

Trabalhou com música infantil, mas não só. Qual foi o tipo de música que lhe deu mais gosto de produzir?

Compus cerca de 50 canções direcionadas para crianças. Gosto de trabalhar para esse público porque o público infantil prima pela espontaneidade e revela naturalmente as suas emoções. Se gostam, não esquecem. Se não gostam, descartam.

Além disso é preciso ter muito humor para fazer músicas infantis. É preciso ter humildade, despojar-se das escalas, harmonias, teorias musicais e fazer o que a canção pede para ficar audível, agradável. Mas, enfim, todo o tipo de música causa-me muito prazer e completa-me como compositor porque mexe com as minhas emoções.

Se tivesse que escolher apenas uma música sua, qual seria?

É difícil escolher. “O caderno”, que fiz com Mutinho, “O filho que eu quero ter”, com Vinícius, emocionam sempre. Também “Tarde em Itapoan”, pela perfeição da estrutura melódica e poética. Mas há tantas outras, todas filhas muito amadas…

Quem são os seus músicos preferidos?

Tom Jobim e Baden Powell são os meus ídolos. Carlos Lyra também influenciou-me muito, e, claro, João Gilberto que inspirou gerações!

Sempre trabalhou muito com outros artistas. Qual foi a razão que o levou a ter tantas parcerias musicais? 

A amizade fortalece qualquer vínculo profissional. Os parceiros passam a entender-se pelo olhar, e essa afinidade transporta-se para as vozes e as mãos na execução dos instrumentos. Parece que tudo obedece uma linha de convergência que procura a satisfação do público. Nessa troca de experiências surge o prazer na procura da palavra certa e da rima apropriada para cada acorde. O facto de muitos de meus parceiros serem grandes músicos também ajudou-me a aprimorar ainda mais a criação melódica.

50 anos de carreira. Como descreve esta já longa viagem pelo mundo da música?

Essa longa trajetória só pode ser alcançada com muita disciplina. Eu considero-me um artesão, que se apoia num violão que representa o início e o desenvolvimento de tudo. A música será sempre uma chama a aquecer a minha paixão pelo instrumento. Penso muito na música “Para viver um grande amor”: “Eu não ando só / só ando em boa companhia / com meu violão / minha canção e a poesia”.

Comemoro a minha formação musical a cada espetáculo e cresci constantemente com os ensinamentos de diversas pessoas. Além das doutrinas do meu maior mestre, Paulinho Nogueira, tive aulas de harmonia com Edgard Gianullo, de orquestração com o maestro Léo Peracchi e também  adquiri conhecimentos de violão clássico com Isaias Sávio.

Na celebração destes 50 anos, vai dar dois concertos em Portugal, em Lisboa e no Porto, em conjunto com o João Ventura. Porque escolheu o João para se juntar a si? 

Tive o prazer de conhecer o João na minha última ida a Lisboa. Fiquei encantado e impressionado com talento dele e a capacidade extraordinária de unir o universo erudito ao popular em contrapontos harmoniosos. Acredito no sucesso do João e fico muito feliz em poder tocar ao lado dele, numa parceria promissora.

E para si, João, o que representa poder atuar com um grande nome da música brasileira como o Toquinho?

Ter a possibilidade de atuar ao lado do Toquinho na Europa é um sonho antigo, conquistado com muito trabalho e muito estudo. Representa, antes de mais, uma oportunidade única. Jamais imaginei partilhar o palco com um nome destes, que ouço desde a minha infância, através dos meus pais. Existem muitas pessoas que alcançam o sucesso e mudam o comportamento com os outros, mas o Toquinho não. Já tive oportunidade de conhecê-lo antes e foi surpreendente. O Toquinho é bastante humilde e estava realmente interessado em conhecer a minha história.

O João apresenta um estilo de música muito particular – a junção da música popular brasileira com música clássica. Como surgiu a inspiração para criar este tipo de conteúdo musical?

Surgiu naturalmente, através da minha própria caminhada artística. Tirei licenciatura e mestrado em música erudita, mas sempre tive um contacto muito íntimo com a música popular brasileira. No meio académico ouvimos constantemente que a música erudita não se mistura com música popular, mas eu sempre achei que as duas conciliam-se frequentemente. É por isso que eu queria fazer essa junção de uma forma intensa, para provar principalmente a mim mesmo, mas também às outras pessoas, que as duas vertentes podem viver em harmonia.

Criou uma fusão entre estilos de música considerados como opostos. Planeia que a sua identidade enquanto artista continue a construir-se nestes moldes?

Vai ser impossível dissociar a música erudita da minha aprendizagem, então pode-se dizer que sim. Não só através de fusões específicas da música X de Beethoven, com a música Y de Tom Jobim, mas de uma forma geral. Procuro trazer para a minha música as diretrizes da música erudita e da música popular para ambas se complementarem.

Trocou o Brasil por Portugal, em 2015, para tirar o doutoramento em piano. A partir daí, já atuou na Grécia, Itália, Áustria e Suíça. Sentiu que a vinda para Portugal lhe trouxe muitas mudanças?       

A minha vinda para Portugal mudou a minha forma de observar a vida. Eu sou brasileiro e amo o meu país, mas quando vamos para um sítio novo, é importante inserirmo-nos na cultura local.

A nível profissional também é bastante diferente do Brasil. Se tocares no Brasil muito reportório próprio, as pessoas vão queixar-se que mostrei muita música que eles não conheciam. Aqui acontece o inverso. O público interessa-se mais pelo reportório novo, pelo que é novidade. Existe um maior interesse pela identidade musical do artista do que em outros lugares e isso fascina-me.

 

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